O que é que andamos para aqui a fazer? É uma pergunta que me parece que pode e deve ser colocada no plural, porque a responsabilidade pelo que se passa à nossa volta é a soma do que cada um de nós decide fazer. De que lado estamos? O que é que desejamos mesmo para o nosso país, para a nossa cidade ou aldeia? Ainda temos algum tipo de sonho, a capacidade de, tal como quando éramos crianças, projectar um conjunto de hipóteses e imaginá-las enquanto uma possibilidade de futuro? O que é que estamos disponíveis para fazer no sentido de transformar esses sonhos em realidade?
Leio notícias, percorro as redes sociais, olho à volta e é muito raro encontrar este tipo de idealização. Vimos uma era desencantada, em que se parte da sensação de derrota, de causas frustradas, guerras sem fim à vista, amplificação dos conflitos e esmagamento de qualquer tipo de manifestação de ingenuidade. Penso nos meus filhos, que por enquanto ainda conseguem (conseguirão?) viver à margem desta sensação de que não há nada a fazer, recuso-me a ceder a esta ideia de que somos impotentes, de que nos resta uma espécie de luta fratricida, uma defesa primária do nosso território, como se as fronteiras devessem ainda ser muros, como se não conseguíssemos perceber o que é tragicamente evidente.
Já ficaram para trás as discussões sobre se o ser humano é intrinsecamente bom ou mau, a filosofia é só uma prateleira na secção de auto-ajuda, uma forma de adoptar uma ilusão suficientemente forte para se conseguir tolerar o intolerável, aceitar que o que é preciso é mesmo parar isto tudo e pensar. Parar para pensar. Suspender a acção imediata, a reacção, encontrar os espaços de excepção, de silêncio, de debate ponderado e lento. Valorizar o tempo, a duração, a presença, a escuta.
A realidade actual é a soma das acções ou omissões individuais. É a manifestação de poder de muitas demissões individuais, as quais são habilmente aproveitadas por quem tem verdadeiro desejo de poder, com frequência um desejo muito pouco saudável, alimentado logo desde a infância pela necessidade de provar alguma coisa, seja na escola, em que os resultados são muito mais importantes que os processos de aprendizagem, seja em qualquer tipo de actividade extracurricular, tantas vezes transformada em procura por mais distinções, um reconhecimento qualquer, que é talvez o motivo pelo qual chegámos aqui, a este paradoxo: o individualismo é o exercício de desumanização e descaracterização do indivíduo.
O que é que andamos para aqui a fazer? Queremos viver melhor, com isso estaremos todos de acordo, mas até que ponto é que estamos dispostos a ir? E esse viver melhor corresponderá exactamente a quê? Será que uma criança com fome e sem tecto deixa de sonhar, deixar de imaginar o que irá ser quando for adulto? A política transformou-se na gestão do desencantamento, na manipulação do instinto de sobrevivência, da indignação, da inveja, do medo do desconhecido. E está a deixar consumir-se, seja qual for o seu quadrante, pelo vazio filosófico e ético que é talvez um dos sintomas mais evidentes de que aquilo de que precisamos é de uma mudança estrutural, em que o dinheiro volte a ter apenas uma importância instrumental.
Levi Martins – diretor companhia Mascarenhas-Martins



