Peça encenada por Ricardo Moura e interpretada por Raul Oliveira, inspira-se em “Dom Quixote”, de Cervantes e procura fazer um elogio à forma apaixonada e sonhadora de ver o mundo.
A peça de teatro “Aguenta Princesa que o Mar está Bravo”, pela companhia GATO SA, vai estar em cena Cine Teatro Vitória – Artur de Sousa Pinto, em Ermidas-Sado e do Auditório Municipal de Alvalade, nos dias 27 e 28 de setembro, depois do seu périplo de estreia por Vila Nova de Santo André, Sines e Santiago do Cacém no mês de julho.
Esta peça, encenada por Ricardo Moura e interpretada por Raul Oliveira, propõe uma interpretação livre e criativa, apresentando diferentes ângulos, sobre “Dom Quixote, a obra clássica da literatura de autoria de Miguel Cervantes. “A nossa ideia principal era desconstruir esse tal formalismo que, normalmente, se tem quando se pega na obra do Cervantes. Aquilo que queríamos passar era fazer um elogio à forma diferente de ver o mundo, à forma apaixonada e sonhadora de ver o mundo. É essa ideia que atravessa todo o espetáculo, de que o sonho, em que alguns casos ainda comanda a vida”, começa por contar Raul Oliveira, em conversa com o nosso jornal.
Sozinho em cena, o protagonista procura levar o público ao universo inspirado em Cervantes, interpretando uma personagem que se prepara para uma peça de teatro. “Basicamente contamos a história de um ator que está em palco a fazer um ensaio para o Dom Quixote, só que essa personagem é confrontada com alguns percalços. O ator que fazia de Sancho Pança desistiu e abandonou o elenco e ele ficou sem o contracena. Depois há vários acidentes de percurso e salta à vista a resiliência do ator, no seu senho em levar o espetáculo até ao fim. E isso é a ideia de fazer o elogio às pessoas que ainda acreditam nos seus sonhos”, revela o ator.
Para Raul Oliveira, a peça, face à sua simplicidade de cenários e de adereços, promove também a abertura para a questão da presença da imaginação e da inocência na sociedade e no quotidiano. “Temos poucos elementos e isso foi deliberado. A nossa intenção era ilustrar aqueles momentos de infância que todos nós, de uma maneira ou outra temos. Por exemplo, íamos para a casa dos avós e fazíamos múltiplas brincadeiras, criávamos múltiplos universos, punha-se dois cadeiras e um lençol por cima e tínhamos uma tenda. É um bocado esta ideia de que com elementos muito simples, muito diminutos, nós podemos criar um mundo de imaginação e um mundo de fantasia que nos envolve e que nos estimula e que nos faz viajar e sonhar”, defende o artista.
Este espetáculo, de acordo com o ator, permite ainda despertar e assinalar questões da atualidade, servindo como ponto de partida para a reflexão do público. “O que nós queríamos tentar fazer chegar às pessoas é que, mesmo quando, sei lá, quando o mundo vem à nossa volta e nos apelida de loucos ou nos diz que estamos a combater moinhos de vento, às vezes ainda é importante acreditar nos moinhos de vento. E nós vemos isso em muitos exemplos de pessoas ou de conjuntos de pessoas que teimam em lutar contra os moinhos de vento, seja na defesa da arte, seja na defesa dos direitos humanos, seja na defesa dos direitos dos animais, seja na luta contra as alterações climáticas. E nós queremos também fazer o elogio a estas pessoas que se dedicam de alma e coração”, explica Raul Oliveira.



