Uma falsa batalha que só serve para dividir

Choca-me ver mulheres com o rosto tapado por imposição religiosa. Estive recentemente na Tanzânia e em Zanzibar, onde 95% da população é muçulmana, e não gostei. Mas confirmei que é possível uma convivência salutar entre culturas, sem que o uso da burka seja um problema social, antes pelo contrário, nunca me senti agastado, nem nunca senti qualquer provocação por ‘estar’ diferente. Nem eu, que sou Católico, nem os milhares de estrangeiros que aportam aquela zona do globo, em trabalho ou em férias.

No caso português este é mesmo um não-tema e, mais ainda, um absurdo, tendo em conta o argumentário utilizado, nomeadamente pelo PSD, invocando razões de defesa dos direitos da mulher e de segurança. Sou dos que defendem o nosso modo de vida ocidental, mas não a soldo deste tipo de ‘decretos’.

Esta medida, proposta pelo Chega e apoiada pelo partido que nos governa, nada tem a ver com a defesa das mulheres. É antes um gesto político de natureza populista e anti-islâmica, que procura gerar medo e dividir a sociedade. O PSD, que tantas vezes votou leis em defesa dos direitos das mulheres, como o reforço das políticas de igualdade salarial e o combate à violência doméstica, deixou-se arrastar por uma agenda de ódio e desconfiança. É um truque tático eleitoralista que belisca a social-democracia pura e dura de Sá Carneiro.

Portugal não tem um “problema da burka”. O que temos é uma crise profunda na saúde, na habitação e no trabalho (veja-se o que poderá estar em causa na pretensa nova lei laboral, num retrocesso inusitado) temas que exigem soluções urgentes e não distrações ideológicas. Esta lei não liberta ninguém, antes pelo contrário, porque agudiza o alegado sofrimento das mulheres que são oprimidas pelo radicalismo religioso. Mas, pior, estigmatiza e alimenta o preconceito. A verdadeira defesa das mulheres não se faz proibindo-lhes o rosto, mas garantindo-lhes voz, escolha e dignidade.

E não vejo, por exemplo, a mesma vontade para acentuar a luta contra a violência doméstica que, como provam os números, grassa nas casas portuguesas, entre famílias ‘brancas e portuguesas’, numa vertigem que nos envergonha enquanto sociedade

Além do mais, em matéria de segurança, as leis vigentes incluem medidas para combater abusos, radicalismos e ações que eventualmente ponham em causa, tanto o Estado de Direito como as normas sociais vigentes. O que não se pode nem deve legislar são usos e costumes, como se fazia no antigamente.

P.S: Conheci pessoalmente Francisco Pinto Balsemão e sempre fui um admirador confesso do seu percurso, nomeadamente na consolidação da liberdade de imprensa e da sua capacidade de ver mais longe. Acarinhou um projeto que lhe apresentei ainda muito jovem e fiz parte da Comissão Executiva da Rede Expresso, então liderada pelo Afonso Camões. Perdeu-se uma grande referência da comunicação social do país e um homem que soube sempre distinguir convicções políticas, ação profissional e visão progressista para o país. Paz à sua alma.