Governar não é somar mandatos, mas sim construir pontes

As recentes eleições autárquicas no distrito de Setúbal deixaram, na maior parte dos municípios, situações de ingovernabilidade objetiva. E, nessa nova frente política, os mandatos deixaram de significar cheques em branco, sobretudo pela dificuldade em acertar entendimentos.

A pluralidade que hoje se vê nas câmaras municipais da região é tanto sinal de maturidade democrática como de um novo ciclo que vai exigir compromisso, humildade e uma maior capacidade de negociação. Por isso a governabilidade nunca foi tão urgente.

Olhando para o mapa político do distrito subsiste uma enorme fragmentação, pelo que a vitória formal de um partido ou movimento deixa de garantir, por si só, capacidade para governar. A grande parte dos treze municípios são agora liderados por maiorias relativas ou forças isoladas que não dispõem de apoios automáticos na vereação ou na assembleia municipal. Isso significa que o futuro da governação deixará de depender apenas da fidelidade partidária e passará a depender sobretudo da capacidade de construir entendimentos.

É aqui que reside o futuro dos nossos concelhos.

Os eleitos, têm diante de si uma escolha: ou se posicionam como muros ideológicos, que impedem o trabalho diário, ou se assumem como pontes que ligam visões e reforçam a confiança dos cidadãos no poder local. O conflito democrático é saudável, a obstrução prolongada não é.

Nestes primeiros dias, no pós tomada de posses, temos visto de tudo: alguns acordos tácitos mas, sobretudo, falta de entendimento e perceção sobre o que o voto ditou nas últimas autárquicas.

Os tempos exigem políticos com coragem dupla: a coragem de manter convicções e a coragem, ainda, de as pôr à prova num diálogo honesto com quem pensa diferente, mantendo a gestão municipal sem grandes tropeços, mas mais aberta à influência das oposições.

Porque, no fim, não há vitória eleitoral que sobreviva ao tempo se não for acompanhada por boa governação.

E boa governação não nasce de muros: nasce de pontes.

O tempo das maiorias absolutas pode ter ficado para trás. Mas o tempo das responsabilidades partilhadas, da criatividade institucional e da política com rosto humano, só agora está a começar.

Está nas mãos dos nossos autarcas transformar este desafio numa oportunidade histórica. E está na nossa mão, enquanto cidadãos e observadores atentos, continuar a exigir responsabilidade, respeito e compromisso.

Afinal, governar não é apenas somar mandatos. É, acima de tudo, construir um futuro comum.