No Alentejo as estrelas ainda cintilam à moda antiga

Natal no Alentejo

Quere-se que o porco saiba a porco e o vinho a vinho. Gaba-se o património religioso e contamse histórias atrás de histórias, mesmo que os netos agora só apareçam de quando em vez e não saibam distinguir uma chibinha de uma porca. Mas falam ‘alamão’ e estudam para doutores. E há quem se “repape” à volta do lume.

Nas últimas décadas desenvolveu-se a ideia de que o Alentejo é um espaço de férias de verão, onde predominam as praias de mar ou as nascidas nas margens do Alqueva, onde a observação de estrelas nas noites quentes monopolizam as atenções dos visitantes e o património arquitetónico espalhado de Norte a Sul arrebata estudiosos ou meros passantes. Esta não é, contudo, uma verdade absoluta. O Natal está aí para o confirmar. Fria, mas convidativa, esta é a época do ano em que os grandes lumes de azinho, os enchidos frescos e os vinhos de sabor único convidam a passar um tempo polvilhado de histórias e lendas.

É no Natal que milhares de alentejanos regressam às origens. Saídos das planícies mais a Sul ou dos terrenos mais montanhosos do Norte, grande parte dos naturais dos distritos de Beja, Évora e Portalegre aproveitam esta época do ano para promover reencontros. O território, correspondente a mais de um terço do espaço nacional, não está massificado com os atrativos do turismo das grandes cidades. A fauna e a flora prevalecem, assim como os sabores ancestrais.

No Alentejo os cheiros ainda são os originais. As ervas aromáticas não desmaiaram nos frigoríficos, as galinhas andam à solta e comem o que devem, ainda há quem crie porcos nas pocilgas e quem tenha pequenas hortas de onde saem as couves do Natal. A fruta não está toda normalizada, como se cada peça fosse uma espécie de produto de plástico, e os vinhos ainda se distinguem uns dos outros. “Talvez haja vantagens no abandono a que o Alentejo foi votado. Para termos um jornal em papel, enquanto ainda os há, temos de fazer dezenas de quilómetros. As escolas fecharam quase todas e os miúdos que ainda por aqui andam fazem todos os dias viagens forçadas, como se tivessem a cumprir alguma pena. Vão cheios de sono para as camionetas das câmaras municipais, porque têm de se levantar uma ou duas horas antes do que seria normal. Os hospitais parecem mais sítios para morrer do que para curar. Mas este desprezo a que nos votaram também tem vantagens, porque assim é mais difícil virem com os produtos aldrabados, cheios de químicos. Aqui tudo é mais natural”, diz Renato Silva, empresário de restauração que já teve negócio aberto em Beja e que agora pondera mudar-se para a zona de Sousel, no distrito de Portalegre.

“As pessoas gostam do vinho a saber a vinho, de um bom queijo de cabeça de porco (cabeça de xara) à moda do Baixo Alentejo, de uns pezinhos como manda a lei ou de umas sopas de cação bem feitas e apuradas. Na zona de Portalegre estão, graças a Deus, a aparecer na zona da serra (São Mamede) muitos vinhos de qualidade. Pode ser uma oportunidade de negócio para a região. Pode ser que traga gente”, atira.

“O que aconselho para o Natal? Aconselho tudo o que é bom e que se deveria comer todo o ano. Desde as labaças (ou catacuzes) com feijão, até à sopa de grão com massa. Pronto, para esta época específica, não pode faltar o bacalhau, do alto, com couves e umas azevias de grão. Tudo acompanhado de um bom vinho e do pão que dura uma ou duas semanas”, acrescenta o empresário.

Maria Ferreira, que durante “mais de 40 anos” cozinhou em diversos restaurantes do distrito de Évora, também elege o bacalhau como produto de eleição para a noite da Consoada: “Sabe, no tempo da pobreza o bacalhau enchia a barriga a muita gente. Agora custa os olhos da cara e quase só os ricos é que o podem comer, mas ainda assim é o que mais sai. Depois também há outras coisas boas que se podem fazer, seja um belo galo com batatas e arroz, ou até um coelho, já para não falar de um borreguinho engordado aqui nos nossos campos. Também há quem faça polvo cozido e apresente grandes travessas de camarões, mas quer parecer que isso é mais coisa lá das terras para junto do mar. Não é uma tradição de Évora. As filhós e as rabanadas, essas comem-se em todo o lado”.

O Natal não é só comida. No Alentejo, à semelhança de todo o país, esta é uma época de grande significado religioso. Tal como na Páscoa, esta é a altura em que os homens mais se aproximam da Igreja. Fazem-no… porque sim. “É o que manda a tradição. Já os antigos faziam a mesma coisa. Lá vamos dar um salto à igreja, que não cai porque também damos para lá dinheiro, e ouvir o que o padre tem para dizer. Se bem que agora até já os padres são importados. Há tanta falta que até já os mandam vir doutras terras, doutros países. Nalgumas terras os padres têm de dizer a Missa do Galo bem antes da meia-noite, para poderem acorrer a todos os sítios. Não me parece que isso tenha grande ‘jeiteira’, mas é o que se pode arranjar”, refere João Marchão, alentejano do concelho de Odemira que “a vida” mandou “enquanto novo” para a Suíça, para trabalhar como “faz tudo” num hotel “sempre cheio de gente fina” em St Gallen.

“A melhor coisa é mesmo ver a família, os filhos que abalaram para Lisboa, mais os netos que andam lá a estudar para doutores. Os maganos não sabem a diferença entre uma chibinha e uma porca, mas falam línguas doutros países. Até falam ‘alamão’. Depois temos de comer… Pois pudera… Temos de comer todos os dias, para não atarmos as botas mais depressa do que a conta”, explica ao nosso jornal João Martins, também conhecido na zona de Portel como “Cachaporra”. “Foi um anexim herdado do meu pai, que matava lebres na cama com uma cachaporra”, explica.

As histórias no Alentejo são como as cerejas: a seguir a uma vem sempre outra, e depois mais outra e ainda outra. “É a modos que as tabernas e as igrejas. Há sempre umas poucas em cada terra”, diz João Martins. “Já o meu pai contava a mesma coisa. Parece que em novo se deitou aí com uma filha de gente endinheirada. Eles não se queriam casar e a família dela também não o aceitava por ele ser pobre, de modos que para não ir malhar com os ossos na cadeia teve de fugir lá para Évora, uma terra digna de ser vista, com muitos monumentos, muitas igrejas. Sempre cheia de gente a visitar. Andou lá durante uns anos, até conhecer a minha mãe. Parece que ainda andou lá numas herdades, mas sempre a olhar por cima do ombro, não viesse a GNR para o prender”, conta.

“Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”, diz o ditado antigo que se aplica na perfeição em relação a cada uma das diferentes zonas do Alentejo. Assim se explica, por exemplo, que nos terrenos a Norte as populações acendam, uns dias antes do Natal, enormes fogueiras num local central das localidades. Há quem ofereça as sapatas das azinheiras que hão- -de arder durante mais de uma semana. É ali, junto ao fogo imenso que ninguém deixa esmorecer, que se assam enchidos, que se provam vinhos e que se contam histórias. “Eu até me regalo, até me repapo de estar a ouvir o que dizem os velhos”, diz João Trindade, morador em Castelo de Vide. “Apanham-se ali grandes cadelas”, conclui.