A crise de habitação e a solução que Portugal decidiu esquecer

Estamos em pleno século XXI e Portugal atravessa uma das maiores crises habitacionais de que há memória. Em algumas zonas do país, os valores já rondam, ou ultrapassam, os 2.000 euros por metro quadrado. Para a maioria das famílias, isto não é apenas um número, é uma impossibilidade muito real. Os jovens não conseguem sair de casa dos pais, o arrendamento tornouse incomportável e a compra de casa passou a ser um privilégio para poucos.

Todos os dias ouvimos membros do Governo, deputados, presidentes de câmara e vereadores a garantirem que estão a estudar soluções, a criar programas e a analisar caminhos para combater este flagelo. O discurso repete-se, faltam casas, os materiais estão mais caros, os custos de construção aumentaram. Mas há um argumento que surge sempre com especial destaque, não há mão de obra qualificada e a pouca que existe é cara.

É aqui que importa parar e pensar. Desculpem a franqueza, mas eu sou do tempo em que o ensino em Portugal estava dividido de forma clara e eficaz. Existiam os liceus clássicos, focados no ensino académico e na preparação para a universidade. E existiam as Escolas Industriais e Comerciais, orientadas para o ensino prático e para o mercado de trabalho. Nessas escolas formavam-se marceneiros, serralheiros, eletricistas, canalizadores, técnicos de construção civil, contabilistas. Profissões concretas, úteis, dignas e hoje desesperadamente necessárias.

Pergunto-me, será possível que nenhum decisor político vê que é precisamente aqui que está uma das chaves para o nosso futuro?

Porque razão deixámos cair este modelo que funcionava?

Porque insistimos numa ideia única de sucesso académico, quando o país clama por profissionais qualificados em sectores essenciais?

Portugal não precisa de reinventar a roda. Ela já existe e já provou que funciona. Com uma aposta séria no ensino técnico e profissional, o País poderia crescer economicamente, reduzir a dependência de mão de obra externa e responder à enorme carência de profissionais na construção e nas áreas técnicas. Isso teria impacto direto no custo das obras, na oferta de habitação e, consequentemente, nos preços finais.

Acredito que 2026 poderia marcar um novo começo. Bastava vontade política para, já em setembro do próximo ano letivo, existe oito meses para relançar estes cursos de forma estruturada, valorizada e integrada no sistema educativo. Não é uma solução milagrosa, mas é uma solução realista.

O problema da habitação não se resolve apenas com discursos, subsídios ou promessas. Resolve-se com planeamento, visão e coragem para recuperar o que já foi bem feito. Falta-nos menos conversa e mais decisão.

Carlos Cardoso – Gestor