Conheço António José Seguro desde os 18 anos. Com ele – e com muitos outros jovens dessa geração – travei lutas políticas, partilhei convicções e sonhei com a construção de uma sociedade em profunda transformação, à época, complexa, conturbada e muitas vezes dividida.
O ‘Tozé’ era já então um líder. Tinha clara noção dos caminhos a percorrer em nome do socialismo democrático fundado por Mário Soares, muito distante do radicalismo ideológico com que hoje, no espaço público, alguns insistem em catalogar o “socialismo” do PS.
Foi nessa matriz que se afi rmou o seu espaço político: um PS assumidamente social-democrata, humanista e interclassista, defensor da democracia plural, da economia mista e de um Estado social forte. Um projeto que nunca pretendeu substituir o mercado por planificação central, mas regulá-lo para garantir justiça social, igualdade de oportunidades e coesão. A saúde pública, a educação universal e a proteção social sempre foram pilares dessa visão.
Eu segui outros caminhos, realizando o sonho do jornalismo. O ‘Tozé’ foi vencendo desafi os, libertando-se de amarras e afi rmando-se como um dos políticos mais sérios e competentes da sua geração. Sofreu os dissabores da política tática, mas soube sair sem mácula. Talvez até cedo demais para provar plenamente as suas capacidades.
À sua maneira e no seu tempo, esteve também na aproximação do PS às grandes famílias socialdemocratas da Europa ocidental, que ao longo do século XX forjaram reformas graduais dentro da democracia. Enquanto isso, definhavam antigos partidos socialistas emblemáticos em países como Itália, França ou Espanha.
Nos anos 1990, com a chamada “terceira via”, associada a Tony Blair – que procurou conciliar uma economia de mercado dinâmica com políticas sociais modernas, investimento na qualificação, combate à exclusão e responsabilidade orçamental – o PS português, sempre fértil em tendências internas, fragmentou-se em duas alas: uma mais à esquerda, outra mais reformista e progressista
Ao longo dessa deriva, nunca vi em António José Seguro qualquer cedência de carácter ou desvio de princípios. Pelo contrário: manteve-se fiel a um projeto de equilíbrio entre crescimento económico e justiça social, firmemente ancorado na democracia liberal.
Também não creio que a sua candidatura à Presidência da República seja um ajuste de contas com o passado ou uma resposta a detratores, próximos ou distantes. O seu percurso recente, marcado pela decisão digna de se afastar do jogo turvo da política da última década, fala por si.
É agora chamado, mais uma vez, a lutar pela defesa da democracia e por um Portugal de todos e para todos. E para quem o conhece, será sempre um grande Presidente.



