Conheci o Eng. José Rodrigues já era uma figura maior da indústria naval portuguesa. Conheci-o como homem, atento, firme nos princípios, profundamente humano na forma como olhava os outros e o território que o rodeava. Ficámos amigos e isso foi um privilégio. A notícia da sua morte, aos 73 anos, após doença prolongada, caiu-me como caem as perdas verdadeiras: em silêncio, mas com um peso difícil de explicar
Ao longo dos anos, vi nele algo raro nos dias que correm: capacidade de conjugar visão estratégica com empatia, liderança com humildade, exigência com respeito. José Rodrigues não liderava à distância. Estava presente. Ouvia. Compreendia as pessoas antes dos números. E talvez por isso tenha conseguido aquilo que tantos julgavam impossível.
Quando, juntamente com Nelson Rodrigues, assumiu a Lisnave num dos momentos mais difíceis da sua história — quando a empresa se encontrava tecnicamente falida — não o fez por aventura, mas por missão. Acreditava na indústria, nos trabalhadores, na capacidade de Setúbal voltar a ser um polo forte da reparação naval internacional. E acreditava, sobretudo, que as empresas têm uma responsabilidade social que vai muito além dos balanços.
Com determinação e coragem, recuperaram a Lisnave, honraram todos os compromissos fi nanceiros, devolveram estabilidade social a centenas de famílias e recolocaram a empresa no mapa mundial da reparação naval. Mas quem o conheceu sabe que, mais do que os resultados, o que verdadeiramente lhe importava eram as pessoas que faziam a empresa todos os dias.
José Rodrigues tinha grande amor por Setúbal. Defendeu a região com convicção, investiu nela, acreditou no seu potencial quando muitos desistiam. Via o desenvolvimento económico como motor de dignidade social. Não falava de trabalhadores, falava de pessoas.
Era um líder com visão, um empreendedor com consciência e um humanista por natureza. A sua coragem, rigor e sentido de responsabilidade deixaram uma marca que não se apaga com o tempo. Deixou uma empresa mais forte, um setor mais respeitado e uma região mais viva.
Mas para mim — como para tantos outros que com ele privaram — deixa sobretudo a memória de um homem bom. Um homem inteiro. Daqueles que fazem falta não só na economia, mas na sociedade.
Setúbal perde um dos seus grandes defensores. A indústria naval portuguesa perde uma das suas referências. E eu perco um amigo que inspirou liderança, compromisso e humanidade.
O seu legado continuará nos estaleiros da Mitrena, nos trabalhadores que ajudou a proteger, nas empresas que salvou e na região que sempre defendeu. Mas continuará também em todos nós que tivemos o privilégio de o conhecer.
Até sempre, Engenheiro José Rodrigues. Obrigado por tudo o que construiu e, sobretudo, por quem foi.



