A depressão Kristin abateu-se sobre Portugal deixando um rasto de destruição no centro do país que, obviamente, ninguém poderia prever. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou-o várias vezes durante o périplo que fez pelos concelhos afetados.
Mas Marcelo também foi referindo que não houve uma noção imediata e exata da dimensão da tragédia por parte do Governo. Este afastamento do nível nacional do que acontece nas vilas e aldeias do país profundo, não é de todo aceitável.
São nestes momentos críticos que se avalia a capacidade de liderança e de decisão política de um Governo e que é possível avaliar se há uma resposta pronta e imediata para catástrofes que responda de imediato a necessidades básicas das populações.
A situação em Concelhos como Leiria, Marinha Grande, Figueiró dos Vinhos, Vila de Rei, Pombal ou Alcácer do Sal, é de grande desolação. É enorme a dimensão a devastação nas florestas, as cheias, a destruição de fábricas e ofi cinas, as casas sem telhados, a falta de luz, de comunicações e de água.
Muitas destas pessoas afetadas, são pessoas idosas, que vivem em aldeias do interior, muitas vezes sozinhas. Estas pessoas precisavam de ajuda imediata e também de conforto. Houve locais onde simplesmente ninguém apareceu nas primeiras 24 horas, tendo sido a interajuda dos vizinhos que valeram naquele momento trágico.
O que vimos acontecer por estes dias, com consternação, foi a ausência das forças armadas a ajudar as populações, simplesmente porque, sem se compreender porquê, demoraram a ser acionadas, e a única atitude próativa do Ministro da Defesa no dia seguinte foi uma triste aparição comunicacional rodeada de patentes militares, apenas para o número mediático.
Vimos a falta de empatia e de sentido institucional da Ministra da Administração Interna, que não é capaz de transmitir sentido de liderança e confiança, de comunicar. Aliás é confrangedor ver Maria Lúcia Amaral neste triste e patético papel.
A solidariedade do país é imensa, grande! Há um país mobilizado para ajudar as populações. Pessoas que se organizam e enviam bens de primeira necessidade para as populações afetadas, pessoas que se puseram a caminho para ajudar, e esta capacidade mobilizadora que temos enquanto povo é notável.
Mas apesar de notável a solidariedade nacional e da nossa reconhecida capacidade de desenrasque, para uma calamidade desta dimensão é preciso bastante mais. Temos que estar preparados para agir num momento de calamidade, porque certamente outros virão.
Está mais que demonstrado, pelos fenómenos climatéricos extremos dos últimos anos, que o país tem que reforçar a sua capacidade de intervenção, tem que ter um Governo à altura das suas responsabilidades, tem que ter legislação adequada e instituições preparadas e munidas de equipamentos e meios.
Os Presidentes de Câmara têm que saber que podem contar como o poder central, as populações têm que saber que há sempre alguém para vir em socorro.
Estes primeiros dias de desnorte do Governo, enquanto as populações sofrem não é admissível. Propaganda do Ministro Leitão Amaro, em bom estilo americano, com vídeo nas redes sociais a mostrar como sabe atender telefones, falar ao rádio e roer as unhas. A Ministra Maria Lúcia Amaral a não conseguir expressar minimamente qual é a estratégia definida e o Ministro da Defesa, Nuno Melo, em poses para as televisões, não é certamente estar à altura das suas responsabilidades e das necessidades do país.
E alguns dias depois, enquanto o Presidente da República fazia declarações à imprensa, o Primeiro Ministro anunciou um Conselho de Ministros extraordinário e, fi nalmente, surgem apoios previstos de cerca de 2,5 mil milhões de Euros destinados a cidadãos e empresas, ajuda europeia, tropas no terreno e alguma organização. Mas, entretanto, já passou uma semana e continua a chover.
Catarina Marcelino – ex secretária de Estado para a Cidadania e para a Igualdade



