O episódio envolvendo a deputada Eva Cabral, do Partido Socialista, expõe de forma particularmente nítida as tensões e contradições que marcam o debate político contemporâneo em Portugal, sobretudo quando questões de racismo e xenofobia entram em cena. Ao classificar a bancada do Chega como racista e xenófoba, Eva Cabral não fez mais do que verbalizar uma perceção que tem vindo a consolidar-se tanto no espaço público como na análise de diversas intervenções e propostas do partido.
No entanto, a reação que se seguiu, nomeadamente a expressão “volta para a tua terra”, não só confirmou o teor da acusação, como revelou, de forma crua, a persistência de discursos de exclusão no seio parlamentar.
Mas este tipo de resposta não é apenas um ataque pessoal; carrega consigo uma carga histórica e simbólica profundamente discriminatória. A ideia de que alguém “não pertence” ao espaço nacional com base em características identitárias ou origens reais ou presumidas é um dos pilares clássicos da xenofobia. Quando tal linguagem é utilizada no Parlamento, instituição que deveria representar os mais altos padrões de civilidade democrática, o problema adquire uma gravidade acrescida.
Sublinho ainda que este incidente não surge isolado.
O Chega tem sido reiteradamente associado a posições e propostas que muitos consideram discriminatórias, seja na forma como aborda questões relacionadas com imigração, minorias étnicas ou segurança. A retórica frequentemente utilizada por alguns dos seus membros tende a simplificar problemas complexos e a atribuir responsabilidades a grupos específicos, o que contribui para a normalização de estigmas e preconceitos.
Não tenho dúvidas de que a intervenção de Eva Cabral não é um excesso retórico, mas sim uma resposta política a um padrão discursivo e programático. O facto de essa intervenção ter sido seguida por uma reação que ecoa precisamente os comportamentos denunciados reforça a legitimidade da crítica inicial.
Em última análise, este episódio levanta uma questão mais ampla sobre os limites do discurso político em democracia. A liberdade de expressão é um valor fundamental, mas não pode servir de escudo para a perpetuação de discursos que atentem contra a dignidade de outros cidadãos. O Parlamento deve ser um espaço de confronto de ideias, sim, mas também de respeito mútuo e de responsabilidade institucional.
Se há algo que este caso demonstra é que o combate ao racismo e à xenofobia não se faz apenas com declarações formais ou princípios abstratos. Exige vigilância constante, coragem política e a disposição de denunciar, de forma clara, práticas e discursos que colocam em causa os valores fundamentais de uma sociedade democrática.



