“Todos Pássaros” de Wajdi Mouawad em cena no Teatro Joaquim Benite

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Foto: Vitorino Coragem

Integram o elenco da peça atores como Cucha Carvalheiro, David Esteves, Fernando Luís, Madalena Almeida, Manuela Couto, Virgílio Castelo E Duarte Romão e Laura Garnel

“Todos Pássaros” de Wajdi Mouawad, vai estar em cena em Almada este sábado, no Teatro Joaquim Benite, transportando o público para o drama do conflito entre Israel e a Palestina, através da história de amor, que nasce numa biblioteca em Nova Iorque, entre Eitan, um judeu-alemão e Wahida, uma árabe americana.

Escrita em 2017, a obra chega ao público português através do encenador Álvaro Correia que, atraído por a reflexão sobre memória e identidade e na experiência do dramaturgo libanês, enquanto árabe cristão, obrigado a fugir da guerra, quando tinha apenas dez anos. refugiando-se em Paris e depois no Quebec, Canadá. “Decidi fazer este texto antes mesmo do 7 de outubro, mas é um conflito que tem sido sempre uma constante e é um texto pertinente. Depois do 7 de outubro ter ocorrido, aquilo que salta à vista no texto não é propriamente a ideia de conflito, mas mais a questão identitária, do sangue e daquilo que é a nossa origem e se é determinante para aquilo que nós somos na vida ou não”, sublinha o encenador ao Semmais, depois do espetáculo ter estreado e permanecido em cena no Teatro São Luís, em Lisboa, até 29 de março.

O encenador considera, muito mais que explorar o conflito e as suas implicações, o espetáculo tem sobretudo uma dimensão humana e emocional. “O autor tenta, por exemplo, colocar-se no lugar do outro. Perceber como tudo isto impacta relações familiares e amorosas, tanto nos núcleos judeus, como árabes. Tem muitas camadas e não sendo novelesca, nem melo dramática acaba por agarrar o público. O texto deixa-nos inquietos, mas tem uma riqueza muito grande e dá muitos pontos de vista sobre o mesmo problema”, explica Álvaro Correia.

Texto desafiante para o elenco

Apesar da riqueza do texto, marcado por muita poesia também, a interpretação do mesmo tornou-se extremamente desafiante para os atores, num elenco composto por Cucha Carvalheiro, David Esteves, Fernando Luís, Madalena Almeida, Manuela Couto, Virgílio Castelo E Duarte Romão e Laura Garnel. “O maior desafio que houve foi não deixar que os atores se levassem só pela emoção, ir mesmo à base da palavra e do texto. A palavra leva-nos a determinados estados e não criar uma psicologia para a personagem, é aquilo naquele momento, não há uma carga que vem de trás. Torna-se humano porque não andamos a carregar a nossa psicologia todos os dias”, revela o encenador.

Não obstante os desafios, Álvaro Correia está satisfeito com o trabalho que foi concretizado por si e pelos atores, considerando-o, até ao momento, um espetáculo da sua vida. “Estou muito feliz com o resultado e até foi para lá do que imaginei. Acho que hoje em dia é cada vez mais difícil fazer teatro, porque não há condições, espaços e tempo de implementação. É uma peça muito difícil, puxada, com muitas camadas, mas que nos deixou muito contentes. Eu não vejo o teatro como uma coisa dogmática ou para dar lições a alguém, mas a arte também serve para despertar e refletir, mesmo na diversão e no entretenimento”, conclui.