Retoma após o 3 de Junho de 2026, e por isso nem uma vírgula mudamos

O primeiro ciclo de iniciativas comemorativas do 80º aniversário do PCP, descentralizado ao nível das seis freguesias do concelho da Moita, terminou no Gaio-Rosário com um almoço-convívio no quintal de João Paiva Carromeu. Lá colámos um cartaz do 27º aniversário do 25 de Abril.

A presença de uma jovem mulher trabalhadora da empresa de confecções Guston, ex-Geffa, na extrema da Norporte, em Alhos Vedros, conduziu-nos a aludir a um artigo de Catarina Carvalho, editado na Revista do Expresso havia três semanas, sob o título “Portugueses do lado errado da América”. É um retrato – aliás profusamente ilustrado, ao longo de catorze páginas, com fotografi as que atravessam um século – de gerações de portugueses que emigraram para os Estados Unidos da América, e em particular de um punhado que se identifi cou com a luta dos operários do sector têxtil, designadamente em New Bedford, no Massachussets, assumindo a liderança do movimento sindical de então.

A capa da revista é explícita: vai-se falar de “Eulália Mendes, a comunista deportada durante as greves do início do século XX”. E o seu rosto colorido de anciã, ocupando todo o espaço, dava-nos desde logo a certeza de uma coisa: sim, ela estava viva.

Eulália conta que o pai, Eduardo Mendes, fi cara contente por ela nascer a 30 de Abril, porque, assim, “pôde ir à manifestação do 1º de Maio lá em Gouveia”.

Nove anos depois segue com os pais para New Bedford. Aos 18 anos vive de perto a greve de 1928, quando o pai lhe ensina a vencer o “medo” com uma laminar recomendação: “onde estavam os grevistas era onde ela tinha de estar”. Rememora as execuções de Sacco e Vanzetti, a solidariedade de John dos Passos, o escritor de origem portuguesa, e o ano de 1935, em que já era dirigente regional do Partido Comunista Americano.

Estamos apenas na terceira página, havemos de chegar à última, mas antes anotemos que os arquivos do Diário de Notícias local destes tempos foram roubados, fi cando-nos poucos escritos. E aqui surge uma explicação de Daniel Georgianna, professor em Dartmouth: “Os portugueses receberam uma ameaça das autoridades, que os acusavam de ser todos comunistas. Mas eles estavam em greve apenas para subir os salários e não para fazer uma revolução”.

Neste “apenas” está, decerto, a chave de uma asserção de José Casanova, então da Comissão Política do Comité Central do PCP e director do Avante!, proferida numa sessão pública, em Setúbal: com o movimento comunista mundial algo abalado e o PCP, no nosso país, condenado à morte, segundo os nossos inimigos, como explicar que se redobre (presente) uma poderosa ofensiva anticomunista no plano ideológico, em toda a parte? Provavelmente porque, tanto ou mais do que na força dos partidos, a resposta está na força dos nossos ideais, não tardam 200 anos, consubstanciada por Marx e Engels naquele conceito de “espectro” que concitava todos os poderes aliados da velha Europa para uma “santa caçada” (Manifesto do Partido Comunista, de 1848, na edição portuguesa de 1997, dirigida por José Barata Moura e Francisco Melo).

Na “terra da liberdade”, nos Estados Unidos, o FBI abria a correspondência a Eulália Mendes, fazia-lhe escutas ao telefone, várias vezes lhe bateu à porta, segundo o seu testemunho. “Declararase comunista nos papéis da imigração de 1935 e negara-se a dizer que não pertencia ao partido quando, a partir de 1948, a lei Taft-Herteley exigia que todos os dirigentes sindicais o fi zessem” – escreve Catarina Carvalho.

É detida em 1950 e deportada a 26 de Maio de 1953 para Varsóvia, na Polónia. Teria 90 anos, numa residência comprada por uma associação de médicos, quando disse: “agora eles olham para mim de lado, porque conhecem o meu passado, que é o meu presente. Eu ainda sou comunista”.

Artur Vaz – escritor