Quando pensamos que o Chega (será o Chega ou apenas André Ventura?) já não nos consegue surpreender mais, eis que André Ventura nos presenteia com mais um “número de circo” digno dos melhores palcos do mundo e, num dia defende a reforma laboral acerrimamente (eu diria melhor do que os autores do documento) e, no dia seguinte consegue votar contra aquilo que o mesmo defendia no dia anterior.
Espanta-vos? Já não devia espantar, mas confesso que até para a falta de vergonha na cara há limites e André Ventura ultrapassou-os, de tal forma que assisti à reacção dos seu próprios deputados, absolutamente incrédulos com o sentido de voto que acabavam de praticar.
O que terá levado André Ventura a mudar o sentido de voto que na véspera (e provavelmente no próprio dia) assumiu com o líder da bancada do PSD, Hugo Soares e até anteriormente com o primeiro-ministro? Uns dizem que foram mensagens de descontentes que recebeu, outros têm a tese que desde o início ele arquitectou este “número de circo”, onde dava o dito por não dito, apanhando todos de surpresa, mesmo aqueles que já estavam de sobreaviso com ele, outros ainda, não sabem, nem querem saber, porque ao líder do Chega tudo é permitido, tudo é perdoado e, continua “levado ao colo” com o epíteto de genial, de mestre da táctica e ajusta-se o comentário ao gosto do freguês.
Fosse Montenegro, ou mesmo José Luís Carneiro a fazê-lo e teríamos inúmeros programas de televisão, rádio e jornais a comentarem a falta de vergonha e desfaçatez desses políticos mentirosos, sem palavra e que desmerecem toda a classe política, mas como foi o “genial Ventura” a fazê-lo, então o máximo que se diz da sua atitude é que Ventura foi igual a si mesmo, como se isso fosse um cartão de visita para se apresentar a alguém.
Mas no meio disto tudo, tenho uma dúvida: há para aí um paladino das virtudes do mundo, durante anos defendido por todos nós das injustiças que dele diziam incluindo Luís Montenegro, que gosta de vir “mandar umas bocas”. Até aqui tudo bem.
Tudo bem, porque a democracia faz-se com direito à crítica, mas diria que não lhe fi ca bem vir criticar “os seus”, sobretudo quando está a ser injusto, pois proclama por reformas a quem não pode e não consegue reformar, por não ter uma maioria no parlamento.
Estamos a falar precisamente de alguém que foi vítima desse mesmo parlamento e, tendo ganho as eleições, viu o seu governo esfumar-se por entre os dedos de uma maioria meio geringonça e, sabendo ele disso, tem obrigação de saber que no parlamento as reformas são feitas pelas maiorias e não se criam maiorias à medida para reformas, porque quem lá está, faz oposição pura e dura e pouco se preocupa em ajudar o governo a reformar, sobretudo se essas reformas forem dolorosas para quem perde privilégios. E pergunto, conhecem reformas incontestadas? Se conhecem, digam.me.
Por isso mesmo, chamar corrupto político ao seu anterior líder parlamentar, que o defendeu contra tudo e contra todos no período em que ele queria “ir para além da Troika” é de uma ingratidão atroz, sobretudo se for feita à frente daquele que é o verdadeiro “prostituto sem carácter” por populismo e não o seu ex-líder parlamentar
Assim, depois de André Ventura ter tido esta atitude, Pedro Passos Coelho terá coragem de chamar os bois pelos nomes a quem anda de mãos dadas?



