Sinto que ando há mais de dez anos a dizer as mesmas coisas. Água mole em pedra dura, penso, ao mesmo tempo que sinto o desgaste da insistência, sobretudo nestes tempos disparatados, em que há quem vá para órgãos públicos nacionais ou locais defender, sem qualquer consequência, que afinal o céu não é azul — o que das redes sociais merece aplauso quando vai ao encontro dos filtros com que cada um escolhe ver a realidade. Eu gosto de violeta, logo o céu é violeta. Simples. E por mais que alguém diga que é azul, é violeta.
Bom, então o assunto de hoje é um dos mesmos de sempre, política cultural: a ideia que regressa sempre das cinzas, qual fénix, de que o financiamento público deve servir para “dar às pessoas o que as pessoas querem”. Muito bem, então vamos ver o que as pessoas, aparentemente, querem (e, por exclusão de partes, o que não querem). Nem vou puxar das estatísticas, não vale a pena, sei bem que corroboram o que direi a seguir mas sei, igualmente, que isso é completamente indiferente para quem vê a vida através de filtros de cor. Então, cá vai: a maioria da população portuguesa quer entretenimento, serviços de streaming de música e filmes ou séries, scroll aleatório nas redes sociais, festas populares, talvez um festival de Verão ou outro, uma ida ao La Féria em anos bissextos, ver os filhos, netos, sobrinhos a actuar com a escola de dança, música ou, com muita sorte, teatro. E é mais ou menos isto. Retrato em caricatura do estado da participação cultural em Portugal, de Levi Martins. Se usarem, peço que por favor creditem o autor.
Portanto, segundo estas pessoas a que me referi no primeiro parágrafo, é bastante simples resolver todos os problemas de política cultural no nosso país e, finalmente, “dar às pessoas o que as pessoas querem”: basta acabar de vez com o financiamento a companhias de teatro, dança, orquestras regionais, cinema de autor, acabar com a Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses e com todos os teatros e cineteatros municipais (a não ser que toda a programação passe a ser de teatro de revista, musicais, blockbusters, stand up, influencers e estrelas pop), de caminho acabar com as bibliotecas de que ninguém quer saber e reciclar aqueles papéis todos que ninguém lê, e já agora com arquivos e museu, que o que interessa é o próximo episódio, a próxima festa, a próxima polémica no reality show, para não falar sequer de futebol, que acho que por enquanto não está ainda no âmbito da política cultural — por este andar lá chegaremos, até porque o Desporto e a Cultura já fazem parte do mesmo Ministério, juntamente com a Juventude. No fundo, a sugestão é que a política cultural tenha como base acabar de vez com todas estas coisas que “as pessoas não querem”. E, depois, pegar em todo o dinheiro poupado e colocá-lo até ao último cêntimo na lista que fiz no parágrafo anterior. Espero que se despachem, porque isto de estar do lado da razão em tempos delirantes é uma valente… chatice.
Levi Martins – diretor companhia Mascarenhas-Martins



