Cáritas queixa-se da faltade espaços e gente para tratarde idosos e crianças

Cogumelo

O presidente da instituição setubalense diz que a situação mais preocupante é dos mais velhos, muitas vezes “despejados” dos hospitais e abandonados à sua sorte.

Crianças até aos seis anos de idade e, sobretudo, idosos doentes e com fracos recursos financeiros, são os principais grupos de risco na área de intervenção da Cáritas de Setúbal, onde a falta de estruturas físicas para os acolher em caso de necessidade faz com que já existam filas de espera com centenas de nomes. No caso dos mais velhos fazem falta, igualmente, pessoas preparadas para os acompanharem no período noturno.

“Os idosos são, sem dúvida, o grupo que mais nos preocupa. É que as crianças, melhor ou pior, sempre têm os pais ou os avós para lhes dispensarem os cuidados necessários, mas os mais velhos são muitas vezes negligenciados pelas famílias. Por vezes saem dos hospitais e são enviados para as respetivas casas, mas sem qualquer apoio. Ficam ali sozinhos, muitas vezes incapazes de se cuidarem, dependentes da ajuda que lhes possa ser facultada pelas instituições”, diz ao Semmais o presidente da Cáritas Diocesana, Paulo Valente da Cruz.

No concelho de Setúbal, diz aquele responsável, a entidade que dirige tem montada uma estrutura que lhe permite prestar apoio domiciliário diário a 60 idosos. Depois existe ainda um espaço que serve de centro de dia para mais 30 pessoas. “Estamos a falar de um equipamento que foi concebido para pessoas que não têm autonomia, mas que, face às crescentes dificuldades, acaba por ser utilizado por muitas outras”, acrescenta.

Paulo Valente da Cruz refere ainda que é cada vez mais imperioso criar condições físicas para receber as pessoas de idade e para acompanhar os que vivem em locais mais isolados: “Defendo que é sempre melhor tratar dos mais velhos em suas casas, desde que seja possível, do que levá-los para lares. Existe toda uma componente mental que não devemos esquecer. No entanto, para manter essas pessoas nas suas casas, também é necessário que as mesmas tenham um acompanhamento permanente, sobretudo durante a noite. O que constatamos é que há uma grande falta de pessoal especializado para desempenhar estas tarefas”.

Dificuldades transversais às duas gerações

Relativamente às crianças, o presidente da Cáritas diz que o problema da ausência de estruturas físicas é quase idêntico ao que afeta os mais velhos: “Neste momento temos falta de berçários, de creches e de jardins de infância. Temos na península de Setúbal os mesmo problemas que se colocam ao resto do país, onde fazem falta mais equipamentos e também muitos recursos humanos”. Depois, acrescenta, existe também o problema causado pela fuga de educadores para outras instituições. “As pessoas gostam de trabalhar connosco, mas a verdade é que os vencimentos nem sempre acompanham os de outras instituições e muitos profissionais acabam por mudar. É normal”, diz.

A Cáritas de Setúbal tem atualmente dois edifícios destinados a acolher os mais jovens. O Sol tem capacidade para 156 crianças enquanto que o Cogumelo está preparado para atender 112. Ambas as estruturas estão repletas e, de acordo com o presidente, existe uma lista de espera com centenas de nomes. “A nossa tarefa consiste em auxiliar quem mais precisa. Há os idosos que praticamente foram abandonados, e há também inúmeras crianças vindas de famílias com graves problemas financeiros. Há gente que, por vezes, deixa de poder ir trabalhar e ganhar porque têm de tratar dos menores. Isto continua a acontecer porque o Estado continua sem garantir os apoios humanos e materiais necessários”, conclui.