Indústria, economia e ambiente: uma agenda para a Península de Setúbal até 2035

Nuno maia aiset82

A nova configuração regional cria uma oportunidade rara. Transformá-la em prosperidade exige coordenação institucional, investimento produtivo e compromissos ambientais verificáveis.

A Península de Setúbal é um dos territórios mais industrializados do país e concentra ativos decisivos para a economia nacional: uma frente marítimo- -portuária de grande valor, empresas exportadoras, competências industriais acumuladas e uma localização estratégica no arco atlântico. Essa força convive, porém, com desafios ambientais e sociais que não podem ser tratados como questões secundárias: emissões, consumo de energia e água, mobilidade, pressão urbanística, habitação e proteção dos ecossistemas.

É neste quadro que ganha sentido a definição de uma estratégia de neoindustrialização para a próxima década. O objetivo não deve ser apenas atrair mais investimento, mas criar mais valor com menor intensidade carbónica e material, qualificando o emprego e reforçando a coesão territorial. Indústria, economia e ambiente não são agendas concorrentes. Bem articuladas, devem constituir a mesma política de desenvolvimento.

A criação da NUTS II Península de Setúbal e da respetiva Comunidade Intermunicipal representa uma mudança institucional relevante. O território dispõe agora de maior informação estatística autonomia politica e de melhores condições para identificar as suas necessidades e defender prioridades próprias. A preparação de uma visão estratégica regional e de uma Estratégia de Especialização Inteligente deverá traduzir essa nova realidade em escolhas claras, projetos maduros e capacidade de execução.

Os indicadores de produto por habitante colocam a Península abaixo das médias nacional e europeia, embora o PIB regional não traduza integralmente o rendimento disponível das famílias nem a qualidade de vida. Ainda assim, estes dados evidenciam uma contradição que importa resolver: uma região com forte presença industrial e logística continua a registar insuficiente criação e retenção local de valor. A nova condição regional poderá melhorar o acesso a instrumentos de coesão, mas o financiamento não é automático. Dependerá da configuração final do quadro financeiro europeu para 2028–2034, da negociação nacional e, sobretudo, da qualidade dos projetos apresentados.

A indústria instalada tem aqui uma responsabilidade central. A descarbonização dos processos produtivos, a eficiência energética, a incorporação de energias renováveis, a circularidade de matérias-primas e subprodutos, a digitalização e a valorização do capital humano devem passar de objetivos gerais a programas com metas, calendários e resultados mensuráveis. Esta orientação está alinhada com o Pacto da Indústria Limpa da União Europeia, que procura conciliar competitividade, segurança económica e neutralidade climática, com especial atenção às indústrias intensivas em energia.

A frente ribeirinha e o Porto de Setúbal podem apoiar uma economia azul mais inovadora, aumentar a capacidade exportadora e favorecer cadeias logísticas mais eficientes. Mas o crescimento económico terá de respeitar a capacidade ecológica do estuário do Sado, da Arrábida e das restantes áreas sensíveis. A transição industrial só será socialmente legitimada se reduzir impactes, proteger a biodiversidade e envolver municípios, empresas, universidades e comunidades locais na definição das soluções.

Também os grandes investimentos públicos previstos — o Aeroporto Luís de Camões, a Terceira Travessia do Tejo, a ligação ferroviária de alta velocidade Lisboa–Madrid e o projeto Parque Cidades do Tejo — poderão alterar profundamente a geografia económica e urbana da região. São oportunidades relevantes, mas não dispensam planeamento rigoroso, avaliação ambiental, participação pública e coordenação entre transportes, habitação, saúde, educação, saneamento e gestão de resíduos. Sem essa integração, o investimento pode aumentar a pressão sobre o território em vez de melhorar a qualidade de vida.

A revisão do planeamento regional é, por isso, tão importante como a política industrial. É necessário proteger valores naturais, regenerar áreas industriais e urbanas degradadas, melhorar a mobilidade coletiva e evitar que o crescimento aprofunde desigualdades ou expulse população dos centros urbanos. A prosperidade regional mede-se não apenas pelo volume de investimento, mas pela qualidade do emprego, pelo acesso à habitação e aos serviços públicos e pela melhoria efetiva dos indicadores ambientais.

A Península de Setúbal reúne hoje condições políticas, institucionais e económicas que há poucos anos não existiam. Mas uma oportunidade não é ainda um resultado. Até 2035, o sucesso dependerá da capacidade de transformar estratégias em decisões coordenadas, financiamento em projetos executados e compromissos ambientais em resultados transparentes. Se o território conseguir fazê-lo, poderá afirmar-se como referência nacional de uma industrialização competitiva, descarbonizada e socialmente justa, melhorando significativamente a coesão social e o seu nível de riqueza, a prazo.

Nuno Maia – diretor geral AISET