O momento mais aguardado são as 11 largadas. Além do rei da festa brava, forcados, campinos e salineiros são também homenageados neste certame, que remonta às celebrações de Nossa Senhora da Vida.
As paredes da sede, repletas de troféus, fotografias, cartéis, jaquetas, barretes, casacas, trajes de luces e tantos outros elementos ligados à tauromaquia, contam a história dos 82 anos do Aposento do Barrete Verde e, por inrência, de um dos maiores patrimónios imateriais da vila alcochetana, as Festas do Barrete Verde e das Salinas.
“Temos muita coisa arrecadada. Quanto mais espaço tivéssemos, mais coisas dava para guardar. É uma coisa inimaginável”, conta ao Semmais Artur Organista, presidente da direção desta agremiação regional, responsável pela organização do certame desde a sua criação.
Tradicionalmente promovidas no segundo fim de semana de agosto, as festas nasceram das celebrações em honra de Nossa Senhora da Vida, realizadas durante os anos 30. O seu ADN é simples de identificar e vai ao encontro do principal desígnio do Aposento do Barrete Verde. “Aquilo que se pretende, e está nos estatutos, é a promoção da festa brava. Essa é sempre a nossa base e pilar. Não podemos, nem queremos, fugir disso. É esta essência e esta cultura que lutamos por manter vivas”, defende o responsável, destacando outras atividades que o Aposento promove, como colóquios e garraiadas.
Na sala ao lado, batizada José André dos Santos, em homenagem a um dos principais dinamizadores da fundação das festas, está, quase como se escutasse a conversa, o “Pintassilgo”, um touro da ganadaria do Engº. Jorge Carvalho — cabeça embalsamada, com parte da capa de pelo e o rabo — que, em 1976, marcou para sempre para a história do Barrete Verde. “Este amigo entrou-nos pela sede adentro e conseguiu subir ao primeiro andar e chegar a esta sala. A sorte é que praticamente não fez estragos. Tínhamos aqui uma mesa de bilhar, andou às voltas, mas, com a ajuda de um veterinário, que o atordoou, conseguiu-se resolver a situação. Depois foi puxado à corda lá para fora”, revela.
Apesar de acabar por não ter sido apenas mais um, “Pintassilgo” foi um dos muitos touros que passaram por Alcochete nas Festas do Barrete Verde e das Salinas. Aliás, no meio desta riqueza patrimonial, o touro-bravo é o grande protagonista. É ele o rei da festa. Só para este ano, entre os dias 7 e 13 de agosto, estão contratadas perto de 90 cabeças de gado. “Promovemos 11 largadas, cada uma com dois animais, logo aí são 22 touros. Depois temos vacas e jogos de cabrestos. Procuramos que os touros possam dar espetáculo, investir, mas também defender-se, e que as pessoas, sem se aleijarem, possam desfrutar da nobreza e bravura dos touros”, destaca Artur Organista.
Mas não só de touros vive o Barrete Verde e a sede da agremiação também o demonstra. Ali podem ver-se salas dedicadas aos forcados, aos campinos e aos salineiros, figuras fortemente homenageadas nestas festas, às quais se juntam outras atrações, como a animação musical. “É a história de Alcochete, não se faz sem o Barrete Verde. São figuras e elementos ímpares na nossa vida e fazem parte do ADN alcochetano. Lutamos por manter este património”, sustenta o presidente.
É nesse património e na forte identificação com as gentes da terra que reside a “verdadeira” força das Festas do Barrete Verde e das Salinas, defendidas não só por esta agremiação regionalista, mas também por outras entidades locais. “Estas festas são o ponto mais alto da nossa existência. Invocam o passado, vivendo o presente, aguardando um futuro auspicioso. Temos o forcado, essa figura inigualável da nossa história; o salineiro, figura elementar do nosso passado e que nos traz à memória as dificuldades que o povo de Alcochete teve naquela atividade; e o campino, uma figura do Ribatejo, mas que está ligada à nossa terra também. Daqui saíram excelentes campinos, que honraram as suas jaquetas”, diz ao Semmais Fernando Pinto, presidente da câmara de Alcochete.
O autarca, que também chegou a liderar a direção do Aposento, sublinha que “os tempos são outros” desde que ajudou a organizar a festa, mas que a “essência se mantém”, nomeadamente na “entrega e dedicação de homens e mulheres” ao certame. Além disso, o edil recorda a importância que as festas têm para o concelho: “Estamos a falar de dias de muita emoção e intensidade. É a oportunidade para muitos alcochetanos regressarem à sua terra, mas também para recebermos a visita de tanta gente, que será seguramente bem acolhida. Mais do que a questão económica, estas festas ajudam a promover o que há de melhor em Alcochete”.



