Morreu Eugénio Fonseca, uma voz de Setúbal na luta contra a pobreza

Antigo presidente da Cáritas Portuguesa e da Cáritas Diocesana de Setúbal morreu esta quarta-feira, aos 69 anos. Eugénio Fonseca deixa uma marca profunda na ação social na região e no país e uma relação especial com o Semmais, de que foi leitor fiel e colaborador. 

Morreu esta quarta-feira, aos 69 anos, Eugénio Fonseca, uma das figuras mais marcantes da ação social e do voluntariado em Portugal e um dos rostos que, a partir de Setúbal, mais se destacou na luta contra a pobreza e as desigualdades sociais. 

Antigo presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal e da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca dedicou grande parte da sua vida à defesa dos mais pobres, dos mais frágeis e dos que tantas vezes permanecem esquecidos. Foi também presidente da Confederação Portuguesa de Voluntariado, cargo que ocupava atualmente. A notícia da sua morte foi anunciada pelo bispo de Setúbal, D. Américo Aguiar. 

A Cáritas Portuguesa destacou, entretanto, a sua “dedicação” e a “marca indelével” deixada na instituição, enquanto D. Rui Valério, Patriarca de Lisboa, o recordou como uma figura incontornável da ação social da Igreja Católica em Portugal. 

Uma vida dedicada aos outros 

Nascido e profundamente ligado a Setúbal, Eugénio Fonseca encontrou na Cáritas uma das principais formas de concretizar a sua ideia de uma sociedade mais justa e solidária. Presidiu à Cáritas Portuguesa durante mais de duas décadas, deixando uma intervenção marcada pela defesa dos direitos sociais e pela denúncia das desigualdades. 

A sua passagem pela instituição terminou em dezembro de 2020, mas não terminou aí a sua intervenção pública. Continuou ligado às causas sociais, ao voluntariado e à reflexão sobre os problemas que afetam os mais vulneráveis. Em março deste ano recebeu uma condecoração do Papa Francisco pelo trabalho desenvolvido ao longo de décadas. 

Mais do que falar sobre os pobres, Eugénio Fonseca procurava conhecer as suas histórias, ouvi-los e fazer com que a sua voz chegasse à sociedade e às instituições. Foi essa uma das características que marcou o seu percurso e que levou o Patriarca de Lisboa a sublinhar que a sua ação passou sempre por “conhecê-los, escutá-los” e procurar que fossem ouvidos. 

Um amigo e colaborador do Semmais 

Para o Semmais, a morte de Eugénio Fonseca tem também uma dimensão particularmente próxima. 

Foi, ao longo dos anos, um leitor fiel e atento do jornal, acompanhando a vida da região e os temas que marcavam a atualidade de Setúbal. Mas foi também mais do que um leitor: foi colaborador do Semmais, aceitando partilhar regularmente com os leitores as suas reflexões e opiniões sobre a sociedade, a pobreza, a solidariedade, a justiça social e o papel das instituições. 

Os seus textos eram, muitas vezes, uma extensão da intervenção que desenvolveu ao longo de toda a vida: uma chamada de atenção para aqueles que ficavam fora das estatísticas, uma crítica às desigualdades e uma defesa persistente de uma sociedade mais humana. 

Essa colaboração representava bem a sua relação com o jornal. Eugénio Fonseca não escrevia apenas para comentar a atualidade. Escrevia porque acreditava que o jornalismo podia ajudar a colocar determinados problemas na agenda pública e, sobretudo, porque entendia que uma comunidade só é verdadeiramente democrática quando não deixa ninguém para trás. 

A sua voz era firme, mas nunca distante. E mesmo quando discordava ou criticava, fazia-o com a convicção de quem acreditava que o debate público podia contribuir para melhorar a sociedade. 

É essa voz que agora se cala. 

“Um exemplo de cidadania” 

A morte de Eugénio Fonseca provocou já numerosas manifestações de pesar. O Presidente da República, António José Seguro, recordou-o como um “exemplo de cidadania”, destacando o seu percurso de intervenção cívica e social. 

Também a Confederação Portuguesa de Voluntariado sublinhou o seu compromisso com “uma sociedade mais humana e participativa”, lembrando o legado que deixa no voluntariado português. 

Em Setúbal, a sua morte representa a partida de uma personalidade que durante décadas esteve presente nos grandes debates sobre a condição social das populações e que fez da solidariedade muito mais do que uma palavra. 

Para o Semmais, fica também a memória de um leitor que nunca deixou de acompanhar o seu jornal, de um colaborador que emprestou a sua voz às páginas do jornal e de um homem que acreditava que falar dos problemas dos outros era, antes de tudo, uma forma de não os deixar invisíveis. 

O Semmais endereça à família e aos amigos de Eugénio Fonseca as mais sentidas condolências.