Salazar entre os anjos, retoma no parque

Valdemar

De passagem pela frescura do Parque do Bonfim, ouvindo referências de louvor àquele conceituado médico com muitos anos de residência e de trabalho em Setúbal e que, para além de ter exercitado no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, se lançou em definito na produção literária, continuando a ser chamado para as tertúlias culturais, retivemos o passo e com à-vontade aludimos à obra de António Trabulo, “O Diário de Salazar”, editada se não nos enganamos em 2004 e que ele próprio diz ter construído “como quem monta um puzzle”, inventando, segundo as suas palavras, as peças que faltam, e transcrevendo o que o ditador passou para o papel como a “involuntária mas preciosa colaboração de Oliveira Salazar” no seu projecto literário. Daí que, assumindo a sua quota-parte de grande responsabilidade na interpretação do que iria na alma de Salazar, previne, em guisa de prólogo: “tentei não falsear o essencial do conteúdo e procurei o homem escondido atrás da palavra”.

É precisamente nesta assunção por conta e risco que nos é dada a conhecer a anotação do dia 26 de Março de 1949: “O Partido comunista sofreu um golpe duro. Foi apanhada a maior parte da sua direcção, incluindo o cabecilha. Pedi informação sobre ele. Chama-se Cunhal. Não é um operário: o diabo nunca foi tolo… Formou-se em Direito, em Coimbra, com classificações elevadas. É um homem inteligente e culto. Vive a sua causa como se professasse uma religião, o que o torna perigoso. Apodrecerá no Forte de Peniche”.

Não vale a pena pronunciarmo-nos sobre o que restritamente tem a ver com o destino em si de Salazar, ou sobre a coerência de um pensamento plenamente identifi cado com os cânones da religião católica a mais ortodoxa, com lugar entre os anjos. Não augurar o apodrecimento na prisão a um dos seus adversários políticos mais consequentes só poderia espantar se admitíssemos que o dirigente de uma das mais ferozes ditaduras terroristas da história da Humanidade, na alusão que faz ao SecretárioGeral de um Partido Comunista como o português e às condições de formação académica para exercer ou não o cargo com êxito, estava a ignorar duas coisas: que não só o PCP já elegera para o mesmo, a 21 de Abril de 1929, um operário do Arsenal, Bento Gonçalves – cujo exemplo “ajudou a consolidar o Partido, transformando-o numa organização forte e combativa, única esperança dos trabalhadores portugueses na sua prolongada resistência ao fascismo” (“60 anos de luta ao serviço do Povo e da Pátria” Edições Avante!, 1982), – mas ainda que o próprio morrera apenas com 40 anos de idade, vítima de um crime preciso com a marca do Tarrafal, a biliose.

“As classes sociais não são categorias estatísticas, pelo que, longe de esgotar o seu potencial revolucionário, a classe operária deve ver avaliado o seu peso, em última instância, para além da sua expressão numérica, pelo seu papel decisivo na produção de riqueza, pelo seu confronto objectivo com o mecanismo constitutivo da acumulação capitalista, a extracção de mais-valia, e pela sua intervenção na luta social e política”, escreve-se na Resolução Política do XVII Congresso do PCP do fi nal de também 2004. Bento Gonçalves tanto introduziu vários aperfeiçoamentos técnicos no torno da empresa com que trabalhava como escreveu “Duas Palavras” no Campo da Morte Lenta em sacos de cimento. Outro, portanto, que concitara e conciliara tudo para ser perigoso.

Valdemar Santos – Militante PCP