Arte e Amor

Vivemos num clima de permanente violência psicológica, é importante termos consciência disso. A violência rende, faz mexer o algoritmo, os insultos, as pilhas de palavras, emojis ou memes acumulam-se nas caixas de comentários, como sacos cheias de víboras numa luta fratricida para tentar chegar ao topo, que é possível que signifique estar ali, sozinho, dentro de um enquadramento a olhar para a objectiva e disparar qualquer coisa que faça com que alguém recomece o movimento. É um jogo doentio e preocupante, que faz equivaler o sucesso à capacidade de estimular o pior nos outros, o apontar de dedos, a obsessão por encontrar culpados, o alimentar da desconfiança e da suspeita. A câmara está virada para quem fala, mas quem fala aponta para fora do enquadramento, para os que ficam de fora da relação. Eu, tu, eles. E desta triangulação cria-se um loop, em que o eu, o tu e os eles vão sendo diferentes, embora o movimento seja idêntico. Ficamos presos nesta lógica: alguém fala indignado, alguém reage com indignação — neuróniosespelho, já ouviram falar? — e alguém, que está alhures e não participa, é responsável pela indignação.

Tenho-me questionado muito acerca do que poderá ser um antídoto eficaz para esta circularidade. Não creio que baste abandonarmos as redes sociais, pois o efeito já se espalhou por mais ou menos tudo, da comunicação social à política, da vida em comunidade — que praticamente não existe, pelo menos numa acepção verdadeiramente aberta, não sei se já repararam — à vida familiar. É preciso quebrar o ciclo, para o que é preciso tomarmos consciência de que não estamos do lado de fora. Eu não estou a falar para ti sobre eles, estou a falar sobre como não existe diferença entre nós. Posso estar aqui neste meu enquadramento, em forma de texto, a tentar partilhar o que penso, mas não quero estar contra ti nem contra ninguém. Não estou a tentar encontrar culpados, apenas a colocar-me o mais fora de mim possível para observar o sítio onde estou, porque não só não quero participar na agressão diária a que assisto, como gostaria mesmo muito de conseguir fazer alguma coisa para nos sentirmos melhor — porque se nos sentíssemos melhor não haveria motivos para toda esta violência psicológica.

Encontrar as causas para o que se passa parece-me possível, mas é um trabalho complexo que merece ser feito de forma sistemática e científica. Não tenho conhecimentos para esse tipo de empreendimento. Mas há uma coisa que conheço bem, que é a alegria de podermos participar em rituais colectivos nos quais deixa de existir separação entre o foro individual e o foro colectivo, entre o público e o privado. Refiro-me às artes performativas, à possibilidade de estarmos juntos em torno de uma brincadeira inútil, que pode até custar dinheiro mas que tem um valor que até hoje nunca ninguém conseguiu medir. Quanto vale uma boa memória? Quando vale o prazer que temos quando escutamos aquela canção de que tanto gostamos? Como se calcula o valor das conversas que vamos tendo uns com os outros? Os melhores antídotos que conheço para estes tempos são a arte e o amor, que na sua natureza mais fundamental continuam a escapar a qualquer tentativa de os aprisionar em visualizações ou dinheiro.

Levi Martins – diretor da companhia Mascarenhas-Martins