UGT denuncia “despedimentos encapotados” no distrito

Emprego

Patrões negoceiam saídas com operários com a folha menos limpa. Mais tarde, quando precisam, contratam outros com ordenados mais baixos e vínculo precário. Há quem meta baixa por não ganhar o suficiente para abastecer o carro e ir trabalhar.

No último ano ano e meio várias centenas de trabalhadores da área industrial da península de Setúbal e também do Litoral Alentejano terão fi cado sem trabalho depois de serem confrontados pelas entidades patronais com possíveis processos disciplinares tendo em vista o despedimento. Os dirigentes distritais da União Geral de Trabalhadores (UGT) dizem que esta é uma forma de “despedimento encapotado” e de bullying. Muita gente aceita sair dos empregos recebendo a indemnização e mais uns milhares de euros sem contestar os argumentos dos patrões e sem sequer ter a oportunidade de receber formação profi ssional que os habilite a trabalhar noutras áreas.

“Temos conhecimento de que esta prática tem vindo a ocorrer desde o ano passado. Não são despedimentos coletivos, mas são formas de pressão exercidas sobre trabalhadores que terão problemas de assiduidade, pontualidade, desempenho ou até por estarem sindicalizados”, explicou ao Semmais o presidente da UGT de Setúbal, Manuel Fernandes.

O dirigente sindical refere que são empresas de “grande dimensão” e da “área industrial” que estão a praticar esta forma de despedimento que só recentemente foi conhecida porque, diz, existem acordos de confi – dencialidade assinados no momento em que os trabalhadores aceitam sair que, se forem quebrados, podem dar origem a procedimento judicial. “Há uma série de casos em que os patrões chamam os empregados propondo-lhe a saída e argumentando que os mesmos tiveram mau desempenho laboral, com avaliações negativas, mas também porque são reincidentes em questões como a pontualidade ou o absentismo. Esta é uma fórmula que difere dos despedimentos coletivos, muito praticados este ano em empresas do Norte do país, mas que se parece basear em pressupostos que nem sempre são verdadeiros. Do que temos apurado, este é apenas um estratagema que tens objetivos financeiros. Já temos conhecimento de casos em que a saída foi proposta a delegados sindicais cujo ‘crime’ terá sido proporem a sindicalização a outros funcionários. Está, evidentemente, posta em causa a opção individual de cada um aderir ou não a um sindicato”, adiantou.

“Naturalmente que estes processos, que já envolvem centenas de pessoas, estão a ocorrer num ciclo financeiro desfavorável para as empresas. Pretende-se apenas obter a redução de custos fixos. O que vai acontecer de seguida, quando os empregadores voltarem a necessitar de mão-de-obra, é o recrutamento de outras pessoas com vencimentos mais baixos e contratos precários”, acrescentou.

“Empresários desafiam estado de Direito”

Para o dirigente da UGT, a atual situação que se vive no distrito e que, por enquanto, apenas estará a afetar os trabalhadores de grandes empresas, é “um desafio dos empresários mais poderosos e sem escrúpulos que colocam em causa o estado de Direito”.

“Os trabalhadores estão receosos. Dizem-nos que caso não assinem os acordos para a sua saída, e que em alguns casos até podem render mais quatro ou cinco milhares de euros, acabam por ser alvo de processos disciplinares tendo em vista o despedimento por justa causa”, explica Manuel Fernandes.

O sindicalista afirma que atualmente existe um ambiente de bullying em várias empresas de maiores dimensões: “O que acontece é que são postas em causa entidades como os tribunais, a Autoridade para as Condições no Trabalho e os sindicatos. Está a imperar a lei da força, a mesma desenvolvida por Trump”.

Atualmente, no distrito de Setúbal, a taxa de desemprego é de seis por cento, ao passo que a média do país é de 5,2 por cento.