O Julgamento de Artemisia Gentileschi

Estamos em cena com “O Julgamento de Artemisia Gentileschi”, uma co-produção Mascarenhas-Martins e O Fim do Teatro, até ao primeiro dia de Novembro. A história deste espectáculo começa quando o Pedro Saavedra veio assistir a um dos espectáculos criados pela Maria Mascarenhas nos últimos anos — uma parte da tetralogia dividida pelas estações do ano: Primavera, Outono, Inverno, Verão. A certa altura disse que gostaria de escrever um texto para a Maria encenar, com base na história da pintora italiana Artemisia Gentileschi. A figura é fascinante por diversos motivos, mas o que começou a tornar-se central foi a constatação de que esta artista extraordinária nunca se deixou esmagar pelas circunstâncias. E que, apesar de todas as dificuldades inerentes ao facto de ser mulher no século XVII, marcou a História da Arte — embora muito do seu trabalho só tenha sido devidamente reconhecido e valorizado séculos depois da sua morte.

Embora, como o título indica, a acção se desenrole em torno do julgamento (por ter sido violada por Agostino Tassi), o espectáculo segue por um caminho múltiplo, entre diferentes tempos e perspectivas sobre o que se poderá imaginar que terá sido Artemisia Gentileschi enquanto artista e, claro, enquanto mulher simultaneamente sensível e indomável. E, de um ponto de vista formal, dialoga com algumas das características da pintura da época, nomeadamente a utilização do chiaroscuro — embora enquadrando-as numa moldura contemporânea. Mas sobre o espectáculo prefiro não escrever mais, pois foi feito para ser apreciado ao vivo, nesse ritual tão antigo e tão rico que o teatro continua a proporcionar.

Artemisia Gentileschi é uma figura inspiradora por nos lembrar de como a tenacidade é importante, a procura por aquilo que sentimos que precisamos mesmo de fazer para podermos cumprir-nos enquanto seres dotados de uma vida interior que pode ir muito para lá das questões relacionadas com subsistência — embora, claro, Artemisia também tenha tido de lutar por condições para continuar a pintar. É evidente que muitas das causas urgentes do presente dizem respeito a questões concretas que já poderiam estar resolvidas se conseguíssemos, de uma vez por todas, superar esta terrível e artificial conflitualidade que é, creio, sintoma de uma angústia existencial colectiva perante a iminência de um fim que terá de chegar para dar lugar a qualquer coisa que não sabemos o que poderá ser. Os exemplos inspiradores, como o de Artemisia Gentileschi, podem ajudar-nos a manter o foco no que verdadeiramente importa, que acho que, lá no fundo, todos sabemos muito bem o que é.

Levi Martins – diretor da companhia Mascarenhas Martins