Falta de tudo nas esquadras da PSP de Setúbal, Almada e Seixal. Os edifícios apresentam carências diversas. O efetivo policial precisa de mais 400 reforços. Falta meios informáticos e também meios de proteção policial e viaturas. Pressão das chefias conduz a inúmeros casos de “burnout”.
Há placas de fibrocimento, balneários sem água quente, instalações elétricas descarnadas, paredes com rachas, falta de climatização. Uma boa parte dos edifícios da PSP no distrito de Setúbal, incluindo o do Comando, apresentam carências e problemas diversos que, de acordo com o Sindicato Nacional da Polícia (Sinapol), comprometem o desempenho do efetivo que, por sua vez, está muito aquém das necessidades. Os sindicalistas estimam que faltam cerca de 400 polícias.
Setúbal, Almada e seixal, as três maiores e mais populosas cidades do distrito, são também as localidades com maior incidência criminal e menos condições para que os polícias ali destacados possam trabalhar. Quem o afirma ao Semmais é o dirigente sindical do Sinapol, João Paulo Carriço.
“No geral, o Comando Distrital de Setúbal tem os seus serviços colocados em edificado antigo, com pouca manutenção, que de tempos a tempos, através das juntas de freguesia, das câmaras municipais e dos protocolos interadministrativos, recebem algumas intervenções que, no entanto, só servem para adiar os problemas”, diz o sindicalista.
Especificando alguns casos que serão dos mais graves, João Paulo Carriço refere que existem “placas de fibrocimento no edifício do comando”, em Setúbal, “manifestos problemas, na Divisão policial de Almada, por falta de manutenção” e na esquadra de Corroios, “que foi construída em 2013 mas que não dispõe de água quente nos balneários, tem urinóis selados por estarem avariados e nem sequer tem climatização”. “Na esquadra de Corroios o problema da falta de climatização faz com que as portas das salas tenham de estar quase sempre abertas e isso prejudica a audição das vítimas, nomeadamente as de violência doméstica”, acrescenta.
O dirigente sindical diz que a esquadra do Seixal “é o pior local de trabalho do Comando Distrital” e justifica a afirmação referindo que o edifício tem problemas estruturais, com fissuras nas paredes, infiltrações de água que já originar diversos curto-circuitos e sem climatização. “Por vezes é mais confortável estar na rua do que no interior da esquadra. No Verão existe um problema de melgas que ninguém consegue solucionar”, diz o responsável contactado, acrescentando também que naquele edifício “não há saída de emergência, porque um dos acessos à rua está bloqueado”.
EIR E ERPI funcionam a 50 ou 60 por cento
O distrito de Setúbal é, de acordo com os diversos relatórios de Segurança Interna elaborados nos últimos anos, o terceiro do país com mais criminalidade, seja geral seja violenta. Esse facto, refere ainda João Paulo Carriço, não se traduz, no entanto, na existência de um efetivo condizente com as necessidades. As equipas de Intervenção Rápida (EIR) e as Equipas de Prevenção e Reação Imediata (EPRI) “estão reduzidas a apenas 50 ou 60 por cento do efetivo”.
“No caso das esquadras os grupos operacionais funcionam com serviços mínimos, sendo manifestamente impossível garantir os serviços em alturas de férias ou outras ausências. Há Esquadras de Trânsito e Esquadras de Investigação Criminal onde os elementos policiais entram sozinhos de serviço, seja nos turnos diurnos ou noturnos. Isto tem implicações de segurança óbvias, porque um elemento que não consegue garantir a sua segurança não pode, obviamente, garantir a segurança dos demais”, refere o dirigente do Sinapol.
“Poderíamos respirar bem melhor se no final do próximo curso fossem colocados 400 elementos no Comando de Setúbal”, acrescenta.
A juntar à deterioração dos edifícios e à falta de efetivos, o Comando Distrital Setúbal tem, também, uma gritante falta de equipamentos. É isso que frisa João Paulo Carriço. “Há uma manifesta falta de meios auto por falta de manutenção adequada. Faltam meios informáticos e, por ridículo que pareça, não existem impressoras, papel, canetas, agrafadores, etc. Também faltam equipamentos de proteção individual, nomeadamente coletes balísticos. Também não existe o armamento adequado à realidade atual”, afirma.
O dirigente sindical afirma depois que atualmente são visíveis os sinais de desmotivação no efetivo do distrito “Não sentimos ter condições para executar os serviços em segurança e com profissionalismo”, diz.
O sentimento de insegurança relatado pelos polícias tem consequências no relacionamento destes com os delinquentes. “Existe uma maior ousadia por parte dos criminosos e um menor receio no confronto com as autoridades. Se antes as discussões eram resolvidas de forma física, nos dias de hoje qualquer pequeno problema leva ao uso de armas brancas e de fogo. A ousadia dos delinquentes é tanta que, recentemente, um grupo roubou um carro, circulou com ele algumas semanas, fez um roubo num supermercado na Amora e, passada uma semana, utilizando a mesma viatura, roubaram outro supermercado na Cruz de Pau, a apenas 50 metros da esquadra da PSP”, refere o sindicalista.
Há eleições, há obras. Há pressão, há “burnout”
A manutenção dos edifícios policiais há muito que é maioritariamente assegurado por juntas de freguesia e câmaras municipais, que desse modo se substituem ao Ministério da Administração Interna. “Por norma, na altura das eleições, as juntas de freguesia e câmaras ficam mais ativas na renovação e manutenção dos mais variados edifícios localizados na sua área de intervenção”, diz João Paulo Carriço.
O delegado do Sinapol na península de Setúbal refere, por outro lado, que todo o efetivo sente atualmente “uma enorme pressão” para que sejam apresentados números que estatisticamente favoreçam cada chefia. “Quando um elemento policial é colocado no terreno sabendo que as suas ferramentas de trabalho estão obsoletas ou são insuficientes, o ri9sco aumenta e o desgaste psicológico torna-se insustentável. Para agravar as coisas, a gestão interna foca-se numa cultura de estatísticas. A pressão constante das chefias para alcançar metas e apresentar números não tem em conta as limitações das esquadras e dos equipamentos, nem as condições de trabalho dos polícias”.
“Os polícias são homens e mulheres sujeitos a níveis extremos de stress acumulado, que muitas vezes culminam em esgotamento (burnout), depressão e em taxas alarmantes de suicídio e que têm sido ignoradas”, diz ainda o dirigente sindical, acrescentando que o Sinapol, ao longo dos anos, tem alertado os diversos comandantes para os problemas detetados. Infelizmente, por razões que desconhecemos, o Comando de Setúbal tem ignorado as forma reiterada as nossas solicitações”, afirma.
“Neste momento, no Comando de Setúbal, há quase diariamente alterações de escala por falta de elementos. Há desvio de elementos de serviços específicos para colmatar falhas e há constantes violações das determinações da Direção Nacional, seja devido à alteração das matizes de horários, seja em cortes de folgas ou através da colocação de elementos desarmados a efetuar serviços que só podem ser realizados por pessoal com arma. As equipas dedicadas às escolas e à violência doméstica são desviadas dos seus serviços para acompanharem a entrega de exames das escolas e para acompanharem e recolherem as ações de entrega de boletins de voto. Há pessoal das notificações a fazerem de condutores ou sentinelas, assim como há polícias sozinhos nas ruas. Já tem havido necessidade de encerrar serviços de atendimento ao público por falta de efetivos”, enumera João Paulo Carriço.






