Só os subsídios ainda mantêm os produtores de arroz em Alcácer

Para um agricultor um quilo vendido rende 40 cêntimos, mas os gastos de produção ascendem a 50. Cereal importado pode não respeitar determinações sanitárias em vigor na UE.

A próxima sementeira de arroz na região do Sado pode estar comprometida. Os elevados custos de produção, que atualmente superam os valores de venda, estão a fazer com que muitos produtores ponderem não preparar os terrenos e proceder à sua venda. As implicações económico-sociais poderão ser devastadoras para um terço dos residentes no concelho de Alcácer do Sal, onde se estima que entre 4.000 e 5.000 pessoas dependam direta ou indiretamente desta atividade agrícola.

Os indicadores estatísticos compilados por produtores e associações agrícolas convergem todos num só ponto: Os custos de produção já são superiores aos valores de venda do arroz e a produção apenas de mantém porque existem subsídios que vão colmatando as quebras.

“Neste momento só quem produz mais de 6.000 quilos de arroz pode ter algum lucro, tendo em conta os subsídios atribuídos. Todos os restantes produtores que fiquem abaixo deste valor, mesmo cm as ajudas financeiras, acabam por acumular prejuízos. O custo de produção de um quilo de arroz é de 50 cêntimos, ao passo que o custo de venda não ultrapassa os 40 cêntimos”, explica ao Semmais o produtor responsável pela Herdade de Portocarro, José Mota Capitão.

O mesmo produtor de Alcácer entende que sem uma intervenção estatal que faça aumentar o preço de venda a reverter para os agricultores, toda a atividade pode estar comprometida nos próximos anos. “Neste momento, nesta zona, ainda existem entre 400 a 450 produtores de arroz. No entanto há muita gente a ponderar o abandono. Os pequenos agricultores podem vender as suas terras a grupos. Muitas centenas de famílias podem ser seriamente afetadas, não só os que dependem diretamente da produção, mas também todo o comércio que subsiste paralelamente, sejam pequenos estabelecimentos de restauração ou outro tipo de comércio associado”, diz.

Para José Mota Capitão, o declínio da produção só não é mais sentido porque, no último ano, o Estado decidiu pagar subsídios relativos à totalidade dos terrenos de cada agricultor mesmo que estes tenham optado por deixar um terço por cultivar, evitando assim o acumular de prejuízos. “Esperamos que esta decisão se mantenha, porque é fundamental para a subsistência de muitas famílias”, acrescenta.

Receios sanitários estão a aumentar

Com o anunciado declínio da produção regional (Alcácer é a segunda região, com 30 por cento das culturas do país, à frente do Mondego, que tem 20 por cento) têm aumentado as exportações deste cereal. Esse é, no entendimento dos agricultores do Alentejo Litoral, um outro problema, uma vez que associado ao mais baixo custo do produto comprado no estrangeiro está também um eventual problema de saúde pública.

“Neste momento Portugal importa cerca de 50 por cento do arroz que consome. Muito desse arroz vem de países como o Paquistão, a Índia, o Vietname, a Tailândia, o Brasil, o Suriname, a Argentina, o Uruguai ou o Egito. São países onde o controlo sanitário não obedece às mesmas regras aplicadas para o arroz produzido dentro da União Europeia. Isso significa que esses produtos podem ter sido tratados e produzidos com recurso a pesticidas e herbicidas que por cá são proibidos por serem considerados nocivos”, explica José Mota Capitão.

Não é apenas uma preocupação com a utilização de químicos que podem ser nocivos para saúde dos consumidores. Na verdade, em muitos destes países, existe exploração de mão- -de-obra infantil. Há pessoas que trabalham um dia inteiro a troco de uma malga de arroz. Essas devem ser outras das preocupações subjacentes”, acrescenta.

Considerando que a atual situação dos produtores nacionais é “uma desgraça completa”, José Mota Capitão entende que o problema só pode ser combatido a partir do momento em que o Governo tome uma decisão favorável aos agricultores: “A distribuição não perde margem de lucro e a indústria do setor, por não ter concorrência, faz o que quer. Carteliza os preços. São os agricultores que ficam ainda e sempre na base da pirâmide, com os prejuízos já referidos. Talvez por isso, daqui por poucos anos, não existam na zona de Alcácer, mais do que 50 produtores”.

Produtos biológicos ganham mercado

A crise que afeta os produtores tradicionais de arroz está a fazer despontar um outro grupo: os que se dedicam à produção de arroz biológico. Em Alcácer do Sal a Rice n Sado tem vindo a ganhar cada vez mais clientes, vendendo diretamente para lojas que comercializam um produto livre de qualquer produto químico. Matilde Capoulas, que gere a empresa com o seu pai, diz que o negócio do biológico prospera mesmo que os subsídios que são pagos a quem tem esta atividade sejam inferiores aos que fazem a cultura tradicional. “Recebemos apenas um quarto dos subsídios que são pagos aos produtores tradicionais. É verdade que não utilizamos químicos e, por isso, também não temos os mesmos custos de produção”, afirma. Matilde Capoulas entende que o mercado está a aderir cada vez mais à produção biológica. “Vendemos um produto que não tem arsénio, um metal pesado que é altamente cancerígeno e que será responsável por muitas doenças detetadas na região, onde a monda acaba por espalhar os químicos para sítios onde estão as pessoas. Essa característica explica a adesão crescente ao nosso arroz, único do género produzido no Sado. Temos oito hectares e precisávamos de nos expandir, mas temos dificuldade em comprar novos terrenos, porque as pessoas que os têm não querem vender para poderem continuar a receber os subsídios”, diz.