A esperança não está derrotada

Há momentos em que o mundo parece caminhar no sentido contrário da liberdade. A extrema-direita ganha terreno, o discurso do ódio banaliza-se, os populismos exploram os medos e a democracia é tratada, por alguns, como um obstáculo em vez de uma conquista. Mas a história não é uma estrada de sentido único. E os acontecimentos dos últimos dias lembram-nos que a esperança continua viva.

No Brasil, Lula da Silva venceu a disputa presidencial e garantiu um novo mandato, derrotando Flávio Bolsonaro. Uma vitória apertada, num país profundamente dividido, mas que demonstra que o regresso da direita radical ao poder não é inevitável. Na Sérvia, foram os estudantes, mobilizados contra a corrupção e o autoritarismo, que protagonizaram uma mudança política histórica, mostrando que uma geração tantas vezes acusada de indiferença pode transformar a indignação em participação cívica e política.

Também em Israel se abrem possibilidades de mudança. As eleições deixaram o campo da oposição em vantagem nas projeções iniciais, mas sem uma maioria clara, num país marcado pela guerra, pela insegurança e por profundas divisões. Não há ainda uma vitória definitiva de uma alternativa política, mas existe a possibilidade de um novo ciclo.

Seria errado confundir estas realidades ou presumir que todas representam uma vitória da esquerda. O que as aproxima é outra coisa: a demonstração de que o poder não é eterno, de que os cidadãos não estão condenados à resignação e de que a democracia conserva mecanismos para contrariar tendências autoritárias.

A esquerda democrática tem, contudo, uma responsabilidade acrescida. Não basta denunciar a extrema-direita, apontar os perigos do nacionalismo agressivo ou defender os valores de Abril. É preciso apresentar soluções para os problemas concretos das pessoas: salários, habitação, saúde, educação, segurança e igualdade de oportunidades. Sem respostas credíveis, a esperança transforma-se facilmente em desilusão, e a desilusão continua a ser um dos terrenos mais férteis para os radicalismos.

A democracia não se salva apenas nas urnas. Constróise todos os dias, na liberdade de imprensa, no respeito pelas instituições, na defesa dos direitos humanos e na capacidade de reconhecer a dignidade de quem pensa diferente. E exige que os democratas não respondam ao ódio com outro ódio, nem à intolerância com novas intolerâncias.

Num tempo em que tantos anunciam o declínio dos valores democráticos, talvez a principal lição destes acontecimentos seja simples: não há inevitabilidades políticas. A esperança não é ingenuidade, nem se confunde com triunfalismo. É a convicção de que vale a pena participar, lutar por sociedades mais justas e recusar que o medo seja a única linguagem da política.

Porque a democracia pode estar ameaçada, mas nunca deve ser dada como perdida.