Não acham estranho que Setúbal, uma cidade que já foi apelidada de «cidade vermelha», esteja hoje tão silenciosa perante um problema que afecta milhares de portugueses?
Nos últimos tempos, voltámos a ouvir expressões que me fazem recuar algumas décadas, aos tempos do PREC: «assembleias populares», «Casas Sim, Barracas Não» e palavras de ordem contra a repressão. Vemo-las noutras cidades, ouvimos falar de manifestações e de jovens que saem à rua para exigir respostas. E Setúbal? Parece que por aqui está tudo bem. Mas será mesmo assim?
Claro que não.
Basta conversar com os nossos jovens para perceber que enfrentam as mesmas difi culdades dos que vivem em Lisboa, no Porto ou noutras cidades do país. Trabalham, estudam e procuram construir o seu futuro, mas deparam-se com rendas incomportáveis e preços de casas que não conseguem pagar. Para muitos, sair de casa dos pais deixou de ser uma etapa natural da vida e passou a ser um sonho adiado, sem data marcada.
O que me causa estranheza é o silêncio que se sente em Setúbal. E, para o compreender, julgo que temos de olhar para trás.
Durante cerca de 23 anos, a CDU teve responsabilidades na governação do município de Janeiro 2002 a outubro de 2025. Foram mais de duas décadas em que a habitação acessível não recebeu a resposta que merecia. Faltou uma política capaz de antecipar as necessidades das novas gerações e criar alternativas para os jovens e as famílias com menos recursos. A construção de habitação municipal a preços acessíveis fi cou muito aquém do que seria necessário ou foi mesmo nula.
A crise da habitação não nasceu em Setúbal, nem pode ser atribuída exclusivamente à Câmara Municipal. As responsabilidades distribuem-se por diferentes governos, políticas públicas e decisões tomadas ao longo dos anos. Seria injusto ignorá-lo.
Mas também seria desonesto fi ngir que duas décadas de governação municipal não tiveram peso na situação a que chegámos. Quem governa tem a obrigação de antecipar problemas, defi nir prioridades e encontrar soluções. E a habitação deveria ter sido uma delas.
É precisamente por isso que estranho a falta de mobilização que agora se verifi ca. Conhecemos bem a tradição de intervenção política da CDU e sabemos que, noutras circunstâncias, os seus militantes e apoiantes estão entre os primeiros a organizar protestos e a sair à rua. Desta vez, porém, a voz parece muito mais baixa.
Será coincidência? Ou será que a história da governação local torna este assunto particularmente incómodo?
Confesso que também fi quei surpreendido com a adesão modesta à manifestação pela habitação realizada em Setúbal na sexta-feira, 23 de outubro, que nem sequer foi organizada pela CDU, foi o Movimento Resgatar Setúbal. Perante a dimensão do problema, esperava-se uma participação mais expressiva. A comparação com a mobilização registada noutros acontecimentos recentes na cidade, incluindo a manifestação LGBT+, dá que pensar. Não está em causa a legitimidade de qualquer causa, mas a difi culdade em mobilizar pessoas para uma questão que condiciona o futuro de tantos jovens.
Noutros pontos do país, houve iniciativas, protestos e assembleias populares. Em Lisboa e no Porto, os movimentos cívicos procuraram levar a discussão para a rua. Em Aveiro, Braga e Coimbra, também se promoveram espaços de participação.
E Setúbal, que tantas vezes fez ouvir a sua voz, parece resignada.
Não acredito que os setubalenses estejam satisfeitos. Acredito, isso sim, que muitos estarão cansados, descrentes ou convencidos de que nada mudará. E essa é talvez a parte mais preocupante.
Uma cidade não pode viver apenas das memórias das suas lutas, nem da cor política que a marcou durante décadas. Tem de ser capaz de olhar para o passado, reconhecer os erros e perceber o que fi cou por fazer
E talvez seja aqui que esteja uma das razões para o silêncio que hoje se sente em Setúbal. Durante cerca de 23 anos, quem governou a cidade não teve a visão de futuro necessária para perceber que a habitação seria um dos maiores problemas das novas gerações. Faltou antecipar as difi culdades, criar alternativas e dar aos nossos jovens a possibilidade de construir aqui as suas vidas.
Agora, quando esses jovens enfrentam rendas incomportáveis e não conseguem sair de casa dos pais, seria de esperar que a cidade se levantasse. Mas quem, noutras ocasiões, esteve na linha da frente das manifestações parece ter perdido a voz perante um problema para o qual também contribuiu a sua própria governação.
Será este silêncio um acaso? Ou será mais fácil protestar contra os erros dos outros do que reconhecer os que também se cometeram?
A habitação não tem cor partidária. Tem pessoas, famílias e jovens que merecem uma oportunidade.
Setúbal já foi uma cidade que não se calava perante as injustiças. É pena que quem teve responsabilidades na sua governação não tenha tido a mesma capacidade de antecipação para defender o futuro dos seus jovens. Talvez seja por isso que hoje, perante um problema tão grave, se ouça tão pouco quem tantas vezes fez questão de se fazer ouvir.
Setúbal precisa de recuperar a voz. Não para defender este ou aquele partido, mas para exigir aquilo a que os seus habitantes têm direito, a possibilidade de viver, trabalhar e construir aqui o seu futuro.
Carlos Cardoso – gestor



