As ruas, por estes dias, estão mais iluminadas e ‘frenéticas’ de gente carregada de sacos de presentes. Em algumas dessas ruas, outra gente luta, dia após dia, para tentar carregar para um caminho melhor quem se esconde na penumbra.
Despovoada, mas, mesmo assim, na maior região do país existem, segundo os dados mais recentes da Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA), 517 – que não são simplesmente um número, mas pessoas – sem teto (na via púbica) ou sem casa (encontram-se em centro de acolhimento) no Alentejo. O ‘infernal mundo’ dos designados sem abrigo é uma luta diária e não apenas de época, para os próprios, que não conseguem ou teimam em não encontrar um rumo, e para quem os acompanha, que batalha para os tirar das encruzilhadas da vida, como é o caso da Cáritas de Beja, a capital de distrito do Baixo Alentejo onde por cada mil habitantes 9,72% enfrenta nesta realidade.
“A principal dificuldade prende-se com o facto de a pessoa querer realmente mudar. Há muitos casos de dependência de álcool, drogas ou doença mental, e é necessário um trabalho de grande sensibilização para que concordem com a proposta da equipa, o que nem sempre é fácil. Normalmente apresentam uma ausência total de projeto de vida e motivação, explica à nossa revista o responsável pela comunicação Márcio Guerra, sinalizando que as carências mais notórias são doença mental e ausência de competências pessoais e sociais que permitam viver em sociedade.
Por outro lado, continua, a maioria está numa “idade em que a sociedade os vê como demasiados velhos para trabalhar e o Estado como novos para se reformarem. Fatores que dificultam a inserção laboral e a concretização de um projeto que lhes dê autonomia e dignidade”.
Dias para ‘abanar’ consciências para dramas diários
Confrontado regularmente com estes cenários, Márcio Guerra, recorda que a solidariedade é o pilar da instituição e, por isso, Natal é todo o ano, sendo que, nos dias 24 e 25, as ações foram ajustadas à quadra. “Seria redutor considerar a nossa abordagem só nesta altura. É verdade que o Natal é uma quadra de maior atenção para com esta comunidade, o que reflete o necessário caminho a percorrer para uma maior consciencialização da sociedade. Mas apesar dos constrangimentos colocados pela pandemia, fizemos algumas ações alusivas junto dos sem abrigo que acompanhamos, como, por exemplo no âmbito da cantina social, um almoço e jantar com a tradicional consoada”, refere.
Florbela Martinho, presidente da Associação de Desenvolvimento Regional D’Entre Tejo e Guadiana – TEGUA, defende os mesmos princípios. Nas palavras desta responsável, a quadra “deve sempre servir para relembrar e reforçar o leque de pessoas que se cruza, ou não, com todos os que coabitam este mundo e partilham os mesmos desejos, necessidades, sonhos e vontades”.
“Na nossa instituição, dentro das possibilidades, tendo em conta o controlo financeiro e a logística que a pandemia implica, dedicámos algum tempo e meios na decoração. Montámos a árvore de Natal, embelezámos as zonas de convívio e assim tornámos a nossa casa mais acolhedora e harmoniosa”, explica o presidente da TEGUA que, entre o centro de dia e o de alojamento, apoia 28 utentes, com problemas que oscilam entre as baixas pensões de subsídios, os distúrbios com o álcool ou psicológicos.
Em Évora, o NPISA que integra a Rede Social do concelho e do qual fazem parte várias entidades e instituições, os cuidados com 14 pessoas em situação de sem abrigo são, igualmente, diários e foram até reforçados em virtude da pandemia, através de monitorização pelos locais de pernoita, da entrega de um reforço alimentar, equipamentos de proteção individual, água, bebidas quentes e cobertores, para além de ter sido feito um levantamento de interesse de vacinação SARS Covid-19 e Gripe.
À Semmais, Nuno Rosmaninho, diretor do Centro Humanitário da Évora, disse ainda que, neste período de Natal, foram entregues cabazes com alimentos e vestuário e deixou um apelo: “Não nos podemos lembrar da existência destas pessoas só no Natal”.



