Anos Sessenta

Com a morte de Sly Stone (Sly and the Family Stone), vieram-me à memória as imagens dos anos 60, sobretudo nos Estados Unidos. Afros, cabelos compridos esvoaçantes, as cores do psicadelismo, o Hendrix a vestir-se de forma a homenagear os índios nativos americanos, a procura por expandir a experiência humana e, sobretudo, por contrariar a tendência para se estar destinado a morrer numa guerra qualquer.

Em muita da iconografia da época, prevalece a ideia de uma comunhão humana possível, uma espécie de onda de energia que Ang Lee tentou captar no seu filme “Taking Woodstock” (a certa altura representa mesmo de forma visual e sonora esta energia que emana do mítico festival). Facto é que no contexto de Woodstock há uma diversidade cultural que, a esta distância, impressiona pelo exemplo.

Os registos da época existem enquanto prova de que o ser humano também é capaz de se deixar levar pela paz e amor, mesmo que para tal seja preciso fazê-lo em contraponto à guerra e ao ódio. É evidente que nem tudo foram rosas, os anos 60 também foram um período social conturbado, pois essa reivindicação de liberdade esbarrava muitas vezes no conservadorismo e preconceito. A história da humanidade parece fazer-se destes contrapontos, de um equilíbrio difícil entre o melhor e pior de que somos capazes.

O final abrupto do filme “Easy Rider”, de 1969 (spoiler alert: no qual os protagonistas são assassinados por nenhum outro motivo do que terem a desfaçatez de serem livres), é um prenúncio daquilo que John Lennon escreveu na sua canção “God”, editada no ano seguinte: “the dream is over”.

Estas memórias surgem em contraste com a actualidade, penso que será desnecessário explicar porquê. É interessante pensar que foi nos Estados Unidos que aconteceu uma parte importante deste fenómeno; foi lá que Jimi Hendrix tocou, naquela manhã enlameada de Woodstock, um “Star-Spangled Banner” que talvez hoje o levasse a ser insultado e considerado antipatriótico. É curioso termos chegado a um momento histórico em que expressar contradições, exercer o direito à liberdade de expressão pode colocarnos em risco. É como se os anos sessenta não tivessem acontecido, para não falar do Holocausto, ditaduras; é como se a História tivesse sido varrida para debaixo do tapete e fosse só um ligeiro incómodo, uma pedra no sapato, que chateia mas não nos impede de continuar a andar. Ando também a ler um livro de entrevistas a José Mário Branco e parece que estou a ter contacto com outro planeta, quando na realidade se está a falar de Portugal logo depois da Revolução, em que o sonho tinha acabado de começar

Um dos prazeres da cultura reside nesta possibilidade de andar para trás e para a frente, rebobinar a História, tentar perceber o que se passou através das impressões de artistas que, inevitavelmente, trabalham nos e para os seus tempos. Se há coisa que gostava era de descobrir como partilhar com toda a gente este valor incalculável, que nada tem que ver com dinheiro e que, pelo contrário, devia ser mais importante que qualquer valor material. Entre o groove de Sly and the Family Stone, as palavras e a música de José Mário Branco, a associação que surge por saber que foi ele quem produziu “Cantigas do Maio”, de José Afonso, a Stratocaster branca de um Jimi Hendrix a inscrever-se como denúncia e lamento da Guerra do Vietname, o sonho hippie a começar a desfazer-se na lama de Woodstock e no homicídio que ensombrou o Festival de Altamont, no final de 1969, registado pelas câmaras dos irmãos Maysles no extraordinário “Gimme Shelter”.

Levi Martins – diretor companhia Mascarenhas-Martins