“Justiça Cega” no palco da Casa da Música Jorge Peixinho

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Dramaturgia partiu de um caso judicial português de filicídio e inspirou, também, na tragédia de “Medeia” e no mito de “La Llorona”.

“Justiça Cega” que sobe esta sexta-feira ao palco da Casa da Música Jorge Peixinho, no Montijo, é um espetáculo de Sara de Castro que propõe uma reflexão sobre a complexidade da justiça e os direitos das mulheres.

Foi a partir de um caso português de filicídio, ocorrido em 2016, que chocou particularmente a dramaturga, que a conceção desta criação começou. “Já tinha feito espetáculos com o mesmo ponto de partida, sob o ponto de vista feminino e feminista. Procuro abrir espaço para que as mulheres possam refletir artística mente sobre todos os temas. Fiquei um pouco incomodada com aquela situação da estratégia de defesa estabeleceu que esta mulher não falasse em tribunal. Então esta imagem de uma mulher calada, sem filhas, perante uma justiça punitiva, foi algo que me inquietou e motivou a pesquisar mais sobre este assunto”, revela Sara de Castro, em conversa com o Semmais.

O espetáculo dá voz a três arguidas, de tempos e contextos distintos, partindo, além do referido caso português, da tragédia, “Medeia” e do mito de “La Llorona”. “Para este espetáculo decidi abordar o tema da justiça a partir do filicídio, mas colocando a reflexão a partir das agressoras. Tanto no caso da ‘Medeia’ como em ‘La Llorona’ temos o caso de uma mulher que é traída e que por vingança mata os seus filhos. Essa narrativa não nos sossegou e procurámos saber o que está por trás de um ato tão cruel e hediondo”, explica a criadora.

Para Sara de Castro, não se trata de uma peça “panfletária” ou de uma “lição para o público”, mas antes de um ponto de partida para a reflexão: “O espetáculo não tenta, de forma alguma, desculpabilizar o ato. Está construído a partir do princípio do debate, não há uma conclusão fechada, existem vários argumentos e procuramos que haja compreensão para ambos os lados, evitando julgamentos simplistas”.

A dramaturga considera ainda que “falta reflexão” e que a justiça é frequentemente pensada de forma “patriarcal e machista”. “Um estudo recente que analisou 100 acórdãos de casos de maus tratos revela que, no caso das mulheres, para além das críticas mais duras, as penas tendem a ser mais pesadas do que as aplicadas aos homens. Existem implicações que muitas vezes não são consideradas. No caso da filicida portuguesa, ela tinha pedido ajuda e apresentado queixa contra o companheiro, mas as respostas da sociedade não chegaram. Isso justifica o que fez? Claro que não. Mas também não podemos simplesmente puni-la, colocá-la na prisão e dormir descansados. Existe uma responsabilização coletiva: para alguém chegar a esse limite, muita coisa teve de acontecer antes”, conclui Sara de Castro.