José Saramago – O Nobel explosivo

Investir na cultura e na leitura, é algo consignado na estruturação do Plano Nacional de Leitura, criado em 2006, e uma resposta institucional ao baixo nível de literacia. Contudo, o PNL viu a essência da sua missão ser extinta por uma portaria de Fevereiro de 2026. A proposta em consulta pública até 28 de Abril, prevê para o 12ª ano que os romances de José Saramago, “Memorial do Convento” ou “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, possam ser substituídos por “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, de Mário de Carvalho. A proposta prevê ainda que Camilo Castelo Branco passe a leitura obrigatória.

Perante esta incongruência, e a possiblidade da mesma ser ajustada antes de entrar em vigor no próximo ano lectivo, levou o ministro da Educação afirmar que “não se trata de cariz ideológico uma vez que a alternativa também é militante do PCP, além disso acho que José Saramago não tem de ser obrigatório”.

Em suma, esta aparente escusa da obrigatoriedade do único Nobel português da Literatura, está a suscitar grande agitação e um profundo debate no meio académico e cultural. Senão vejamos, com mais de meio sáculo de escrita e intervenções literárias, direi que diminuir a exigência e o retrocesso no PNL é, inquestionavelmente, um acto antidemocrático, retrógado e pedagogicamente ineficaz. O permanente fosso pedagógico entre os leitores instalou-se como uma doutrina silenciosa.

Em vez de se investir na formação de leitores, tendo como objectivo diminuir a complexidade do estilo da escrita de Saramago, com frases longas e uma pontuação deliberada e subversiva num diálogo que obriga a pensar, opta-se por adaptar o currículo à incapacidade que o próprio sistema está montado, facilitando o vicio e indo pela redução da exigência, dizendo consecutivamente “porque os alunos não conseguem assimilar”. Melhor dizendo, porque nunca lhes foi exigido que o fizessem.

A tudo isso junta-se o desinvestimento no PNL, sendo explicito um duplo ataque deste governo à literacia duma geração.

Ao afastar os jovens da literatura mais exigente não está a protegê-los, mas sim a empobrecê-los.

Dizer-lhes que a complexidade é dispensável, que o esforço intelectual é opcional.

José Saramago escreveu sobre diversas casos de cegueira e este manual de cegueira política, é uma dádiva a uma geração que é educada, cada vez mais, para a estupidificação coletiva.

A obra literária de José Saramago continua a ser ainda para alguns iletrados vector de explosão.

Artur Vaz – escritor