“Com o novo plano estratégico podemos subir de divisão no contexto turístico da Europa”

PRESIDENTE DA ERTL, VÍTOR COSTA EM ENTREVISTA

O presidente da Entidade Regional de Turismo de Lisboa apresenta as linhas de força no novo plano estratégico. Depois das “centralidades”, é hora da criação de “doze polos”, com a região de Setúbal a ganhar maior importância. 

O que está em causa neste novo plano estratégico?

É a preparação de um novo ciclo de desenvolvimento, e um ciclo que inclui a sustentabilidade, que é essencial para manter o que já se conseguiu. De alguma forma, a proposta que se faz é no sentido de aprofundar a questão regional. Um destino turístico regional, que sempre houve, mas que queremos agora levar mais longe.

Desde o primeiro plano, o paradigma era a cidade, sem esquecer, claro, as outras áreas da região. O que agora temos certo é que a cidade, Lisboa, não vai mudar, porque é o grande peso e a âncora de toda a região. Mas fomos evoluindo, de modo a que todos tivessem assumido o princípio da criação da marca, como parte integrante e agregadora deste vasto território em termos turísticos internacionais. Isso funcionou e todos ganharam com isso. 

Primeiro a marca como “chapéu” da estratégia, e agora, o que se segue quando refere “aprofundar” o destino regional?

É focar outros planos, lançar um novo patamar de um destino mais vasto, com 3 milhões de habitantes, e integrar todo o território. Assumir esse fator e integrar o destino. 

Isso passa por intervenções mais locais, ou nem por isso?

Esse plano de intervenção local cabe aos municípios. Estes podem ter as suas iniciativas, porque acrescentam, tal como os planos nacionais são uma mais-valia para o todo. O que se procura, essencialmente, é que haja coerência, até para evitar desperdício de recursos.

Assumimos agora esta construção de uma região mais abrangente, como se fossem destinos diferentes, mas complementares. Lisboa, Sintra, Mafra, Arrábida, no quadro de um destino coerente, aumentando a escala no contexto europeu. Com esta estratégia, podemos subir de divisão na Europa. Evidentemente que já temos relevância, mas deixamos de ser uma coisa tão pequena. 

Depois, é preciso ver que o território dispõe de realidades diferentes, mas também coisas comuns. E combina duas ideias: A primeira são os produtos transversais. Por exemplo, quando falamos da valência “City breaks”, composta de pequenas viagens para destino urbano em sentido lato, pode ser entendido como viajar essencialmente para Lisboa. O que se pretende é estender a outras cidades. Pode ser Lisboa, mas também Setúbal ou Mafra. Isto é dar transversalidade ao produto. O mesmo se passa no que diz respeito a congressos e eventos. Esta é uma das grandes novidades do plano. 

Isso significa que outras cidades já ganharam capacidade para albergar esses eventos?

O segmento é muito diversificado. Há os grandes congressos, que só se podem realizar em Lisboa, os médios congressos que só Lisboa e Estoril podem receber, mas há também os corporate, eventos de empresas e múltiplas viagens de incentivos que podem integrar toda a oferta. 

Depois, há produtos dentro desta transversalidade que podemos apresentar, como são os casos do surf, o golfe, sol e mar, que cresceram muito nestes anos. São transversais e complementares, e também acabam por ser multiplicadores de oferta, com impacto na cultura, na gastronomia, no enoturismo, nas compras. 

Esta é a primeira linha do produto. A outra, é a criação de doze polos turísticos, divididos em três níveis de intervenção de acordo com o estado de desenvolvimento dessas zonas identificadas. Nós temos, dentro desta grande região, polos já consolidados e outros que precisam de estratégias específicas, para os quais temos que encontrar respostas. 

Como se definem essas variáveis?

O quadro é o seguinte: Temos os que já estão desenvolvidos, como são os casos do centro de Lisboa, Cascais ou Sintra, mesmo a Ericeira; depois os que estão em desenvolvimento, tendo já iniciado esse percurso, como Arrábida ou Mafra, que ainda podem crescer muito mais; e, finalmente, os polos que queremos desenvolver, como o Arco Ribeirinho Sul, a Reserva Natural do Estuário do Tejo ou a Costa da Caparica.

O anterior Plano abordava as centralidades, agora aprofunda em polos, é isso?

É ir mais longe. Repare, com este plano, só o Tejo concentra três centralidades, transformando-o num grande produto turístico das duas margens – deixando de haver barreira – que no caso da Península de Setúbal, aposta em Almada, Seixal e Barreiro. Depois, no que diz respeito à chamada zona do Arco Ribeirinho Sul, tem muito a ver com a questão do aeroporto e com os projetos da Baía do Tejo, de que a Cidade da Água pode ser um exemplo. É uma área de grande potencial que precisa de investimento privado, de oferta hoteleira. Sem esquecer as zonas de reserva natural, como Alcochete, Vila Franca de Xira, mais viradas para o turismo natureza e tradições. No geral, é uma visão que nos entusiasma. 

Este aprofundamento tem a ver com os resultados obtidos?

Os resultados espelham uma realidade que tem tido sucesso e é uma história de cooperação. O primeiro plano, em 1998, muito antes deste modelo, apontava uma trilogia: história, escala humana de Lisboa e área envolvente. Mas era muito centrada. O passo que estamos a dar é integrador de um caráter regional, logo, mais alargado.

Os problemas da mobilidade inter-regional continuam a ser um handicap também para o setor…

Sim. As soluções não dependem de nós, mas queremos ter uma palavra a dizer. O investimento na mobilidade urbana e inter-regional é excelente para os cidadãos, mas também para o turismo, nomeadamente as acessibilidades externas.

Nesta área tem havido notícias muito positivas, o passe Navegante, o investimento projetado em frotas…

As medidas que estão a ser seguidas a nível da Área Metropolitana vão no caminho certo, nomeadamente com os exemplos que deu. Mas não é de um dia para o outro que tudo se resolve, até porque, como sabe, viemos de um período em que, a esse nível, batemos quase no fundo. Depois, são investimentos que demoram tempo. O Metro de Lisboa encomendou 42 novas carruagens, mas demoram dois a três anos a chegar, e a Transtejo encomendou, ou está em vias de contratar, dez novos barcos, que só deverão entrar em funcionamento no mesmo período. 

Identifica os problemas da mobilidade como um entrave no incremento do turismo na margem sul?

É, talvez, a primeira questão para que tudo isto possa funcionar como queremos. A distância, muitas vezes, são dois quilómetros, mas se o turista tiver que dar uma volta de 50 quilómetros, não funciona. Ou se, para visitar dois ou três locais da Península de Setúbal, for obrigado a ir e vir duas vezes a Lisboa, acaba por ser um grande constrangimento. E se o Metro e o barco não funcionarem, o efeito negativo aumenta.

Não deve concordar quando algumas vozes dizem que a região de Setúbal é um pouco desprezada, até pela ERTL…

No nosso caso, de maneira nenhuma. Vejo a região de Setúbal como a zona de maior potencial de desenvolvimento, embora precise ainda de muito investimento, privado e público. Mas dispõe de grandes áreas disponíveis, nomeadamente aquelas que albergavam atividades obsoletas, e que têm vindo a ser requalificadas. Há outras zonas, como Loures ou Mafra, mas são mais limitadas. 

Qual é então o ‘safanão’ que falta dar?

Sobretudo, é preciso uma estratégia, depois resolver a questão dos transportes e mobilidade, e continuar a captar investimento privado. É preciso olhar para estas áreas como uma grande oportunidade, até porque são terrenos mais baratos, às portas de Lisboa. Se usarmos a mesma marca para um turista internacional, este pode dormir no Seixal ou no Barreiro e, com bons transportes, viajar para Lisboa. O contrário também é verdade. Temos que estimular essa relação. Mas, como já disse, a mobilidade, a qualidade e o tempo de transporte podem fazer a diferença.

E agora, mesmo com polémicas, fala-se no aeroporto do Montijo. Seria uma boa alavancagem?

Pois… é preciso saber se avança. Sabemos que nesta matéria nunca haverá consensos no nosso país. 

A começar pela região, cujos autarcas estão divididos…

É um facto, mas não é drama nenhum. Pessoalmente não tenho entrado nesse debate sobre opções e escolhas. O que sei é que devemos ter uma capacidade aeroportuária adequada ao peso que pretendemos ter, e não estou a referir-me só ao nível do turismo.

Se temos a ideia de desenvolver em Lisboa um Hub, é preciso encontrar soluções aeroportuárias urgentes, senão os aviões não chegam cá, ou deixam de se ver tantos e com tanta frequência. Se isso acontecer, não é só o turismo que se ressente, mas toda a atividade económica. Desejo que isso aconteça.

Portanto, não está a gostar deste jogo de impasses?

Aguardamos a decisão e, a acontecer, iremos propor a realização de um estudo complementar sobre questões ainda não tidas em conta, como a experiência do passageiro. 

Como irão funcionar os táxis, o modelo de informação, os apoios e as acessibilidades. Tudo isso tem que ser estudado e estamos disponíveis para o fazer. Sem esquecer as externalidades, que podem influenciar a região, designadamente no domínio do emprego.

Alguma vez iremos assistir ao encerramento do Aeroporto Humberto Delgado?

Não sei, mas sei que não é razoável pensar nisso. Retirar o aeroporto de Lisboa seria muito negativo. Não escondo que levanta questões, como o funcionamento urbano, e outras de ordem ambiental e de segurança. Mas essas têm que ser tratadas a nível global. Porque esse tipo de problemas verificar-se-ão em qualquer solução que se encontre. A grande questão, hoje, é saber como é que os aviões podem poluir menos, ou como podem transitar com menos ruído. Tudo isso vai ser visto à escala global. E, na minha opinião, tem havido uma evolução muito grande nesses aspetos.

Alcochete não seria uma solução adequada para um aeroporto definitivo? 

Se fossemos para Alcochete haveria os mesmos problemas, acho que isso é público. E se, por exemplo, a opção fosse fora da AML, seria ainda mais negativo. Seria o único aeroporto na Europa fora de um grande contexto urbano, de uma capital. Uma infraestrutura desta dimensão tem impactos grandes sobre a realidade urbana e sobre a vida das pessoas, mas é um grande fator de competitividade que a maior região do país não pode desperdiçar.

E o que me diz da ideia de já haver turistas a mais em Lisboa?

É um absurdo, não partilho dela. Primeiro porque não conheço nenhuma cidade do mundo, em que isso se pode avaliar, assim, de ânimo leve. Só num local isolado ou numa ilha. Repare, posso dizer que a Torre de Belém tem turistas a mais, então a solução é definir o número de grupos que a podem visitar ao mesmo tempo. Essa gestão de fluxos pode e deve ser feita, mas globalmente não se coloca essa massificação no caso de Lisboa. Atualmente o número de turistas da região anda à volta dos 8 milhões, entre portugueses e estrangeiros, com uma média de três dias de estadia. 

Essa é uma boa média?

Claramente! Paris, por exemplo, tem uma média de dia e meio. Tem a ver com o produto turístico, se é “short breaks”. No nosso caso, esse índice representa dois terços. O mais importante é que tem aumentado o gasto médio por turista, cerca de 800 euros (embora queiramos chegar aos 1000 euros), bem como tem aumentado o grau de satisfação, neste tipo de turismo ligado a famílias e pequenos grupos, cuja permanência média é de 2,4 noites. 

Queremos investir em produtos de mais tempo, mas este é adequado e dificilmente esta realidade se vai alterar.

Por exemplo, espanhóis, alemães e franceses, são os que gastam menos, mas são quase parte integrante do que designamos como mercado interno, pela proximidade. Mas quando vamos à procura de novos mercados temos que oferecer novos segmentos. Os brasileiros e americanos gastam mais. 

Depois temos os chineses, que até nem são dos que gastam menos, mas que é um nicho que não pretendemos priorizar, sob pena de começarem a chegar excursões atrás de excursões. Isso sim, seria negativo.

Neste sentido, quais são os mercados que interessa explorar?

Os do Japão, Coreia do Sul, Arábia Saudita, Irão, que se enquadram melhor neste tipo de turismo de família, amigos ou pequenos grupos. .

Gosta da ideia de que Lisboa está na moda?

A moda é uma coisa que passa…

Não lhe diz nada, então?

Posso apenas reafirmar que este nosso percurso ajudou a aumentar muito a sua notoriedade. Temos vindo a crescer e a consolidar essa notoriedade, estratégia atrás de estratégia. 

Neste último período, por exemplo, crescemos 5 pontos percentuais em cota de mercado a nível nacional.

Mas se compararmos com alguns destinos europeus de referência, estes subiram, em média, 5 por cento, e nós 10,9 por cento, é mais do dobro. 

Há outro número interessante, é que 90 por cento dos visitantes chegaram à região pela primeira vez, o que significa que estamos a atrair novos turistas urbanos.

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“Há presidentes de Câmara que dizem ter-se enganado e  que o atual modelo funciona”

Está esbatida aquela ideia de os políticos de Setúbal acharem má solução a agregação a Lisboa?

Tendo em conta o trabalho desenvolvido com esses municípios, e da análise que fazemos, acho que sim. Não nos podemos esquecer que durante um largo período a estratégia era outra. O modelo “Costa Azul” e o que se lhe seguiu. Pessoalmente, estava convencido que a mudança iria resultar e que a Península de Setúbal teria muito a ganhar com a marca Lisboa. Na altura, vários presidentes de câmara discordaram, mas mantiveram-se fiéis à nova orgânica. Hoje (não vou dizer-lhe quais) há presidentes que já me disseram que se tinham enganado e que o modelo funciona.

Mas nunca deixaram de reclamar maior atenção para a outra margem…

Há sempre uma ponderação leal, mas também o envolvimento de todos na mesma estratégia. No essencial, tem resultado, e agora temos que passar para novas etapas, que é o que está em jogo. Entendo que para além de Lisboa, toda a AML é um trunfo, mas é uma região muitas vezes incompreendida na questão dos fundos…

É verdade, sobretudo no caso de Setúbal, que tem perdido milhões de euros por estar integrada numa NUT considerada rica. O que acha disso?

Acho que não se tem em conta a diversidade e os diferentes estágios de desenvolvimento das realidades locais.