Preparar ataque à pós-crise

A falência de empresas e o aumento do desemprego são os maiores inimigos das autarquias na ‘ressaca’ da pandemia. Apesar dos orçamentos camarários terem emagrecido, os investimentos públicos são para manter.

 

O Governo estuda o regresso a uma “nova normalidade”, mas os presidentes de câmara do distrito preparam-se para enfrentar a batalha que se segue e avançam com medidas e estratégias que mitiguem os impactos sociais provocados pela paralisação da economia. 

“O importante é conseguir dar respostas no presente, continuando a trabalhar para o futuro,” resume ao Semmais Frederico Rosa, líder do município do Barreiro, que anuncia a atração de investimento como uma prioridade renovada: “Já o era antes, agora passa a sê-lo duplamente”. 

É por isso que mantém contacto diário com os privados que estão a desenvolver projetos no concelho, garantindo que continuam interessados em fazê-lo, à semelhança da autarquia que lidera, pois “estes investimentos, sejam privados ou públicos, são decisivos para o relançamento do emprego e da economia local”.

Nuno Canta, edil do Montijo, partilha da mesma opinião: “Do ponto de vista do investimento seria muito importante que se avançasse com a construção do novo aeroporto, quer para combater o expectável aumento do desemprego, quer para dar alguma esperança às pessoas.” A nível camarário mantem-se, por enquanto, o investimento programado “na construção da nova Loja do Cidadão, de um centro cultural e de um projeto de habitação de custos controlados na antiga fábrica da Izidoro, mas alguns terão de ser adiados”.

Na Moita, embora não se verifiquem adiamentos nos principais investimentos municipais em curso – melhoria da mobilidade urbana e reabilitação do Palácio do Descarregador para instalação do Museu Municipal – os atrasos são inevitáveis “porque os processos estão em andamento mais lento”. 

É isso igualmente o que se verifica em relação a investimentos privados, como seja, a instalação do entreposto logístico da Aldi no concelho que “abrandou o ritmo”, como explica o presidente Rui Garcia. Vindo de um período com crescente dinâmica económica, o edil teme pelo futuro, considerando que “o tecido económico da região assenta nas Pequenas e Médias Empresas (PMEs), que têm menos recursos, o que certamente levará a uma subida do desemprego e da pobreza”. Esta mesma apreensão revela Álvaro Balseiro Amaro, edil de Palmela, “as PMEs estão, neste momento, em grande agonia e se isto se prolongar vamos ter muita dificuldade em voltar ao crescimento económico que sentíamos no concelho. Nas multinacionais, o recurso a lay-off, a não renovação de contratos e os despedimentos de temporários começam a assumir números preocupantes”. 

Maria das Dores Meira, presidente da Câmara de Setúbal, também aponta o dedo à “entrada em lay-off de muitos trabalhadores e a alguns despedimentos que podem ser processados de forma menos clara, com todas as implicações que isso pode ter na economia local”, como um dos seus maiores receios. No que respeita a investimentos camarários, a autarca tenciona manter todos os projetos planeados, acreditando que esta será também “uma forma de manter a economia a funcionar e a recuperar”.

Em Almada, a presidente Inês de Medeiros, afirma que é “inegável que haverá impacte no investimento previsto pela câmara e no investimento privado, embora ainda seja cedo para ter uma noção exata da sua proporção”. Apesar disso, garante que pretende honrar os compromissos assumidos e avançar com os projetos que considera fundamentais para o concelho.

Desemprego, pobreza e muitas e grandes incertezas 

Dar resposta imediata às pessoas e empresas em situação vulnerável foi uma das preocupações iniciais dos autarcas que rapidamente tomaram medidas de apoio social adaptadas aos seus concelhos. No entanto, por mais abrangentes que sejam, não serão suficientes para resolver problemas estruturantes como o desemprego e a pobreza.

Álvaro Beijinha, líder autárquico de Santiago do Cacém, assegura que no seu concelho, o maior desafio será lidar com “as pressões económicas a nível das PMEs e do comércio tradicional” que empregam muita gente. E no Seixal, o presidente Joaquim Santos revela receios semelhantes: “Já estou a receber pedidos de ajuda de pessoas que perderam os empregos e infelizmente sei que a situação se vai replicar”. A pobreza envergonhada associada ao desemprego também levou Fernando Pinto, edil de Alcochete, a reforçar a equipa e o raio de ação dos apoios sociais, “procuramos não deixar ninguém com fome”, mas com a escalada de situações “vai ser complicado”.

Figueira Mendes, presidente da câmara de Grândola, fala em ironia para descrever o que se passa no seu município onde, há apenas dois meses, o problema era a falta de mão-de-obra qualificada. Os tempos são de incerteza, mas os grandes investimentos turísticos privados previstos para a Comporta e para Troia, a par da fábrica de componentes para aeronáutica em instalação na zona industrial, “em princípio são para continuar,” gerando postos de trabalho e alguma esperança. 

Travar a fundo foi o que aconteceu aos negócios que estavam a crescer em Alcácer. Segundo o edil Vítor Proença, a área da restauração “que é muito forte no concelho” é uma das mais afetadas. Já em Sines, o seu homólogo Nuno Mascarenhas teme que as grandes empresas (Porto de Sines, refinaria e central termoelétrica) venham a dispensar trabalhadores: “O desemprego aumentou logo em março, sobretudo as-

-sociado ao encerramento do comércio local. Mas, tal como no ano passado, vamos continuar a apoiar estas lojas, fazendo delas os nossos principais fornecedores”.