Retrato da região antes de Abril de 74: entre o pé descalço e os calabouços da Pide

Passados 47 anos sobre a revolução que depôs o regime fascista, o Semmais recorda como era a vida na região. Um cenário de pobreza e medo descrito por um antigo operário de Setúbal.

Vinte escudos diários para sustentar agregados familiares por vezes com mais de dez pessoas. Descalços pelas ruas ou a trabalhar em fábricas de peixe ou oficinas. Rezar para que não fosse necessário deixar a escola antes de estar concluída a quarta classe. Cuidados redobrados nas conversas com amigos e famílias, porque “havia bufos por todo o lado”, e cair nas mãos da Pide ou de outras polícias era quase uma sentença de desgraça eterna. Assim era a vida na região de Setúbal, antes da revolução de 25 de Abril de 1974 contada por Sertório Herrera, antigo metalomecânico e atual presidente da LATI – Liga dos Amigos da Terceira Idade, em Setúbal.

“Os homens iam ao mar, trabalhavam no campo ou nas oficinas. As mulheres, as que trabalhavam, eram conserveiras. As crianças tentavam aguentar-se na escola até fazerem a quarta classe, mas muitos saíam logo aos sete anos, porque era preciso trabalhar para ajudar a sustentar a casa e a família”, conta ao Semmais o antigo operário.

Vindo de Cabrela, em Montemor-o-Novo, a família Herrera (os pais e sete filhos) tiveram de se virar com “20 escudos por dia que o meu pai ganhava como contínuo na Câmara Municipal de Setúbal, com o peixe que as mulheres conseguiam esconder nos bolsos interiores dos aventais, com as trocas que se faziam com as que trabalhavam com legumes na praça”. “A vida na região de Setúbal, ainda nos anos 50, mas também nas décadas seguintes, quando surgiram as fábricas de automóveis e, mais tarde, a indústria naval, era de grande pobreza. De muita exploração”, partilha o operário que trabalhou na Barreiros e no Entreposto Industrial, ao mesmo tempo que desafiou o regime e a polícia política, tornando-se membro de comissões de trabalhadores e militante do PCP.

 

Trabalho sem horário e ao toque da sirene das fábricas

Sertório Herrera lembra, por exemplo, que as mulheres de Setúbal que laboravam na indústria conserveira, não tinham horário de trabalho. Eram chamadas a qualquer momento para as fábricas, consoante houvesse descarga de peixe.

“Quando a fábrica estava a meter peixe, tocava uma sirene. Cada fábrica tinha um toque diferente e as mulheres tinham de o conhecer. Podiam ser chamadas de manhã, à tarde ou à noite. Por vezes, para além da sirene, eram também alertadas por um homem que se deslocava de bicicleta pelas ruas”, relembra.

Entretanto, os homens, “para esquecerem o desgosto da vida pobre que levavam, faziam o trajeto trabalho/taberna/casa”. “Os que trabalhavam na região passavam sempre pela taberna para jogarem às cartas. Não havia mais nada com que matar o tempo. Os que trabalhavam em Lisboa, para onde iam de camioneta (Belo) tinham de se levantar de madrugada e, quando regressavam, já era quase outra vez hora de se levantarem”, diz o antigo operário.

Nas ruas era tão habitual ver mulheres vestidas de negro, tradição que terá sido trazida do Alentejo, de onde seria proveniente, nas décadas de 1940, 1950 e 1960 cerca de metade da população da região, e as crianças andavam invariavelmente descalças. “A roupa passava de irmão para irmãos, e também entre vizinhos. Eu andei descalço até sair a lei a proibir. O que isso teve de bom para mim foi que deixei de poder ir levar o almoço ao meu pai. Mais tarde, quando aos 14 anos tive o meu primeiro trabalho, numa mercearia, passei a andar com umas sandálias que tinham sido da minha mãe”.

 

Viviam-se dias “acagaçados” pelas interpelações da Pide

O operariado, assim como os pescadores e trabalhadores rurais da região de Setúbal, eram constantemente alvo de interpelações policiais, muitas delas por parte da Pide, a temida polícia política que reprimia, de modo violento, quem fosse contra o regime.

“Fui levado uma vez para a delegação da Pide em Setúbal, no Bairro Salgado. Eu e dois outros colegas. Tínhamos convocado uma greve. Enquanto um estava a ser interrogado, os outros dois estavam num calabouço, na cave. Apanhei um cagaço de todo o tamanho, porque não sabia como os enfrentar. Ainda para mais atiraram um colega meu pelas escadas. O que nos valeu, ainda nesse dia, foi a intervenção de um diretor da fábrica, que foi lá dizer que nós não tínhamos atividade política”, refere ainda Sertório Herrera.

Quando, por fim, se dá a revolução, o metalomecânico residia no Bairro Marcelo Caetano, onde pagava por uma habitação social 560 escudos de renda mensal. “Nessa mesma noite acordei com dois vizinhos a martelarem o nome na placa que indicava o nome do bairro. Passou a chamar-se Bairro Humberto Delgado”.