Falta de mão de obra está a ‘emperrar’ negócios da região

Da restauração à indústria, a falta de mão de obra afigura-se critica para os empresários da região. As entidades contratantes garantem não perceber o que se passa. Cerca de 30% dos estudantes de hotelaria emigram para o Norte da Europa.

A falta de mão de obra não é de agora, mas a atual escassez ganha cada vez mais espaço e é transversal a vários setores. Segundo a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), revelam o défice. “Os dados mais recentes do INE sobre as estatísticas no 3.º trimestre de 2021, dizem que os setores do alojamento, restauração e similares registaram um decréscimo de 35,7 mil trabalhadores face ao período homologo”, disse ao Semmais Paulo Esteves, gestor da Delegação do distrito de Setúbal da AHRESP.

Alegadamente os países do Norte da Europa, estão a ‘roubar’ alunos da Escola de Hotelaria e Turismo de Setúbal, nomeadamente para a Noruega, onde cerca de 30% dos estudantes escolheram fixar-se. “Esta emigração deve-se ao facto de os salários serem superiores e também porque encontram os melhores restaurantes do mundo em termos de ranking, algo bastante atrativo e prestigiante para o currículo”, avançou ao nosso jornal o coordenador da Área Técnica, Nelson Machado.  E acrescenta que uma das soluções passa por pôr em prática horários mais ajustados à vida pessoal do colaborador. “A minha opinião é que os restaurantes da região se adaptem ao que é praticado em locais como Lisboa, trabalhando com turnos”, referiu.

Também as Pousadas de Portugal, nomeadamente em Alcácer do Sal, têm vindo a enfrentar o mesmo desafio. “Estamos a trabalhar com as várias entidades no sentido de encontrar soluções para preencher as vagas disponíveis, nomeadamente na Pousada Castelo de Alcácer do Sal”, disse ao Semmais uma fonte da unidade de alojamento.

 

AHRESP pede criação de medidas urgentes de incentivo

Perante este cenário, a AHRESP pede que sejam criadas políticas de incentivo à contratação. Para a associação, essas medidas são “essenciais e urgentes, para que a escassez de recursos humanos não constitua um travão à recuperação económica, nem ponha em causa a competitividade do turismo” nacional.

Mas não é apenas a atividade turística que se está a ressentir. Num dos setores mais importantes na região – o vitivinícola – a situação também não está fácil. “Temos como ideologia ser uma empresa familiar e damos prioridade às pessoas, mas temos sentido mais dificuldade na fixação de colaboradores, sobretudo no trabalho no campo. A poda é a nossa grande dificuldade porque carece muito do fator humano”, explica a empresária Leonor Freitas, confessando “não perceber o que se passa, pois nós pagamos acima do ordenado mínimo nacional”.

Já a CVRPS ‘culpa’ a grande oferta de emprego na capital. “Há uma crónica falta de mão de obra talvez porque estarmos na Área Metropolitana de Lisboa, que tem uma grande atração e oferta de emprego. Isso faz com que, por vezes, os jovens não queiram aceitar trabalhos na viticultura, ainda que possam ser mais bem pagos do que noutros serviços”, refere Henrique Soares, presidente da instituição.

Por sua vez, a Associação da Indústria da Península de Setúbal – AISET fala num “grave problema demográfico”. Nas últimas décadas, diz o presidente Nuno Maia, “o ensino profissional foi praticamente abandonado e o existente é pouco acarinhado pelos poderes públicos, o que leva a que muitos dos saberes mais exigentes e complexos não tenham a adequada estrutura formativa disponível nas camadas mais jovens”. “São necessárias competências acrescidas nas ciências exatas (matemática, física), que não são as preferidas da maioria, razão pela qual há também um menor recrutamento nesta área. Por fim, alguns quadros mais qualificados optam por carreiras internacionais mais atrativas em termos de progressão profissional e económica que nas empresas nacionais”, afirma.

No setor da indústria, de acordo com o responsável da AISET, as funções mais desfalcadas são “serralharia, metalomecânica, tornearia, manutenção industrial, automação, laboratórios e até condução de veículos pesados”.