Temperatura da água do mar está a provocar mudanças na pesca sadina

Face ao progressivo desaparecimento de espécies tradicionais, a comunidade local está agora mais vocacionada para a captura de espécies mais rentáveis. Estudo mostra capacidade de adaptação mesmo que exista menos gente a seguir a profissão.

As alterações climáticas e as mudanças de temperatura na água do mar podem estar na origem da diminuição de algumas espécies piscícolas e no surgimento, em maior número, de outras. A zona de Setúbal não foge à regra: a sardinha, por exemplo, parece estar cada vez mais a Norte, uma situação que podendo inverter o habitual ciclo financeiro da região, não parece causar grande alarme, uma vez que a comunidade piscatória parece preparada para adotar outro tipo de pesca.

A bióloga Rita Gamito Lopes, que atualmente trabalha para a câmara de Setúbal, proferiu recentemente uma palestra na Casa da Baía no âmbito do projeto “Setúbal, Terra de Peixe”, onde abordou temas relacionados com as alterações em curso. “Prefiro abordar as questões sempre pelo lado positivo e, por isso, acredito, que a sardinha não irá deixar de ser pescada pela comunidade piscatória local, isto apesar de apenas existir uma embarcação que se dedica à pesca de cerco. Há, por outro lado, mais redes de emalhar e de tresmalho”, disse ao Semmais.

Com base num estudo que desenvolveu desde 2014, a bióloga concluiu que os pescadores de Setúbal estão agora muito mais vocacionados para a captura de choco, linguado e salmonete, espécie esta que sendo bem mais rara, acaba por ser apetecível devido à sua alta rentabilidade. “Mesmo com o possível rareamento de algumas espécies, os pescadores vão à procura daquelas que têm mais valor comercial”, afirmou.

 

Começam a aparecer espécies subtropicais e tropicais

Referindo-se mais concretamente às alterações da temperatura da água, Rita Gamito Lopes disse que é possível que estas provoquem um afastamento da sardinha (apesar de os estudos ainda não serem conclusivos), mas que traga até às águas locais diversas espécies subtropicais e tropicais. “Na Arrábida essas espécies já têm aparecido e creio que a atividade nunca chegará a estar em causa, uma vez que os pescadores têm grande capacidade de se adaptar à pesca utilizando outras artes diferentes das mais tradicionais”, acrescentou a bióloga, salientando que a cavala será, por essa razão, a espécie que atualmente é mais captada na região.

Mais problemática, pelo menos em termos imediatos, parece ser a resistência dos atuais pescadores em aceitar que os filhos continuem a exercer a profissão. “Esta costuma ser uma atividade que passa de pais para filhos, mas que parece estar em declínio. Com o desaparecimento dos mais antigos há uma quantidade infinita de informação, que por norma é passada oralmente, que tem tendência a desaparecer. Perde-se, por exemplo, toda o conhecimento sobre a forma de navegar nos estuários dos rios, que é muito complexa, e perde-se também a informação sobre os melhores bancos de pesca”, refere Rita Gamito Lopes.

“Em Setúbal a subsistência da pesca não deverá estar seriamente ameaçada. É preciso, no entanto, que o novo pescado se torne atrativo para os consumidores, de modo a obter uma maior valorização económica para os pescadores. Não nos podemos esquecer que Setúbal é terra de peixe e que uma eventual crise no setor corresponderá, também, a uma crise social e de identidade”, concluiu a mesma responsável.