A vida é mesmo uma m%#&@, não é?

De 20 a 23 de outubro estreamos a nossa próxima produção no Cinema-Teatro Joaquim d’Almeida, Montijo: “Uma mulher, um homem, um músico e dois deuses entram num bar”.

A história deste projecto começou em 2019, altura em que estávamos muito longe de saber como seriam os três anos que entretanto passaram. Era uma ideia que a Maria [Mascarenhas] queria desenvolver enquanto encenadora e autora, com base no conceito de fé. No momento em que pensou na hipótese de juntar deuses e seres humanos num bar, vivíamos uma fase de um certo optimismo. Previa-se, portanto, que o espectáculo acabasse por ser uma reflexão bem humorada, por oposição àquilo em que se transformou.

Não foram apenas os acontecimentos externos a influenciar esta mudança de tom e de sentido, mas também uma sucessão de questões pessoais e profissionais, entre as quais problemas de saúde mental, um aumento significativo de responsabilidade, um ataque político em relação à actividade da Mascarenhas-Martins e o luto pela perda de um familiar.

Há cerca de um ano que não há tréguas; os desafios sucedem-se e o nosso estado de espírito (refiro-me ao da Maria e ao meu, que co-dirigimos esta Companhia) acho que pode ser descrito como uma mistura entre angústia, melancolia e zanga.

O processo de trabalho começou em Julho. A Maria tinha alinhado uma série de ideias para escrevermos a três (com o Miguel Branco) e marcámos uma semana para estabelecer a estrutura. A Maria delegou-nos então a tarefa de verter em texto o que tínhamos pensado, tarefa a que nos dedicámos em seguida. seguida. O resultado não lhe pareceu ir ao encontro das suas preocupações e, por isso, tentou modificar esse texto, versão após versão, até chegar à conclusão de que não era o momento para tocar neste assunto.

O que decidi, numa altura em que era ainda possível pensar num projecto alternativo e concebê-lo de raiz, foi fazer o contrário do que habitualmente faria: em vez de criar um novo espectáculo e ocultar esta falha, optei por expor a situação, aproveitar um material que de outra forma ficaria na gaveta e tentar, através desta estratégia, dar expressão a esta angústia que temos sentido.

“A vida é mesmo uma m%#&@, não é?”, é umas das perguntas que a certa altura um dos deuses dirige ao dono do bar. É uma pergunta retórica, claro. Para as personagens em cena, não parece haver grandes dúvidas.

E cá fora também não parecem existir motivos para nos deixarmos iludir. Estamos a passar por um mo- mento histórico difícil, sombrio, mesmo que aqui e ali se consiga ter um vislumbre de um desejo genuíno de mudança. Queremos que o nosso trabalho contribua para essa mudança, o que significa que neste momento não nos apetece produzir espectáculos que não se relacionem com o que estamos a sentir.

Sete anos depois de termos fundado a Mascarenhas-Martins sei que estamos a chegar ao final de um ciclo. E este espectáculo, ou anti-espectáculo, como lhe queiramos chamar, constitui o ponto final dessa primeira fase.

É uma conjugação entre o momento de luto pessoal por que estamos a passar, com o luto pela inocência perdida da Companhia. É provável que não seja um espectáculo animador, mas o nosso propósito nunca foi o de criar distracções. E acreditamos que não estamos sozinhos nesta sensação de que a vida, como está, não faz grande sentido.