Pescadores perdem cada vez mais espaço para praticar a pesca do cerco

Os melhores pesqueiros estão a ser interditados aos profissionais. Se avançar a construção de um recife artificial em frente à Comporta, muitas embarcações correm o risco de terem de parar. Militares “roubam” 40 dias de faina por ano.

Pescar de cerco no espaço compreendido entre Setúbal e Sines é, cada vez mais, uma tarefa complicada. Aos cerca de seis meses de outono e inverno que raramente permitem uma saída para o mar, juntam-se as proibições de fazer a faina em áreas específicas, seja para proteção de espécies, porque há exercícios militares em curso ou porque se pretendem privatizar espaços para exploração turística. “Estão a matar a pesca e os pescadores”, dizem os representantes do setor, cada vez mais embrenhados nas contas, que teimam em apresentar despesas maiores e lucros que minguam. “São contas de sumir”, dizem ao nosso jornal.

A mais recente contestação dos pescadores que fazem o cerco (capturam, por norma, a sardinha, o carapau e a cavala) tem a ver com a pretensão de um grupo privado querer construir, ao largo da Praia da Comporta, Grândola, um recife artificial que irá roubar, nos primeiros cinco anos após a eventual aprovação, a quem se dedica à faina um espaço de 10 mil metros quadrados. No futuro, o espaço do recife poderá crescer até 52 quilómetros quadrados “Querem transformar aquilo numa área privada para mergulho, para ser usada pelos clientes dos grandes resorts e hotéis previstos para a zona”, afirma Ricardo Santos, presidente da cooperativa de pesca Sesibal.

“É um dos melhores pesqueiros da nossa zona e nem sequer necessita de qualquer intervenção, porque o fundo é de rocha e, portanto, atrai mais peixe. Mas se fecharem aquela área à pesca, então muitas traineiras correm o risco de parar”, continua.

Ricardo Santos entende que, se for por diante a pretensão de atribuir aquele espaço à iniciativa privada, a comunidade piscatória do distrito fica seriamente ameaçada e a atividade profissional comprometida.

“Retiram-nos tudo o que nos pode dar lucro e alimento. É que também não podemos pescar na área do Parque Marinho Professor Luiz Saldanha (53 quilómetros quadra- dos entre a Praia da Figueirinha e a Praia da Foz, próxima do Cabo Espichel). Dos 80 a 100 dias de pesca que temos por ano, há 40 que se perdem devido aos exercícios militares. Depois, no inverno, as condições do mar raramente permitem a saída, mas, mesmo que tal aconteça, não podemos pescar sardinha. Restam a cavala e o carapau, que nessa altura do ano está magro e não rende nada”, explica.

Os problemas da comunidade piscatória não passam ao lado da autarquia de Grândola, cujo presidente, Figueira Mendes, já confirmou que existe, por parte dos promotores turísticos, a intenção de solicitarem uma reunião para apresentação do projeto que defendem para a área. “Estaremos solidários com as pessoas ligadas à pesca”, disse o autarca que revelou ainda não ter sido contactado por qualquer entidade governamental para se pronunciar sobre o caso.

As preocupações expressas por Figueira Mendes são igualmente partilhadas pelos responsáveis das câmaras de Setúbal e Sesimbra, os quais já tomaram posições públicas contra a construção do recife artificial na Comporta.

Também o Sindicato dos Trabalhadores da Pesca do Sul entende que a obra, a concretizar-se, representa mais um agravamento para as condições de subsistência da comunidade piscatória, que se debate “com a falta de apoios para suportar os aumentos dos preços do combustível”.

Nas áreas dos portos de Setúbal, Sesimbra e Sines pescam, atualmente, 25 traineiras. Ao todo estas embarcações empregam cerca de 500 homens, dos quais uma centena são estrangeiros. “É essa a realidade. Cada vez há mais africanos, marroquinos e indonésios a pescar nas nossas embarcações. Sujeitam-se ao que os portugueses não querem. Ninguém gosta de chegar ao final do mês e ver o armador pagar a cada pescador o ordenado mínimo ou nem isso”, diz o presidente da Sesibal.