ICNF tem equipas que fazem o acompanhamento semanal dos animais. Há alimento, boa qualidade da água e também muito operador turístico que sobrevive à custa dos avistamentos da espécie, causando muita pressão na comunidade local.
A população de golfi nhos no estuário do Sado é atualmente de 25 indivíduos, um dos números mais baixos desde que a comunidade local começou a ser acompanhada pelos peritos do ICNF em 1980. A situação é grave? Nem por isso. As fêmeas que deram à luz em 2023 podem voltar a ser mães já no próximo ano. A comunidade está a rejuvenescer. Também há comida em abundância e a qualidade da água é boa. Só a perturbação dos animais no seu habitat, por parte de embarcações turísticas se apresenta como uma espécie de “escolho no paraíso”.
“De facto o número de golfinhos é muito reduzido, tendo em conta que até chegou a ser de cerca de 40 animais. Esta situação da redução do número de animais é difícil de ultrapassar, até porque a comunidade estava envelhecida. A situação começou, no entanto, a alterar-se em 2023, quando nasceram seis crias. No ano passado só nasceu uma e este ano já há mais outra. No entanto, as fêmeas que tiveram filhos há três anos poderão voltar a ter nova descendência já no próximo ano e os números poderão voltar a aumentar”, explicou ao Semmais Sofia Palma, uma das técnicas do ICNF que integra as equipas que, semanalmente, fazem o acompanhamento dos animais naquela que é a única zona do país que possui uma comunidade residente.
Sofia Palma explica que há estudos constantes sobre o modo como decorre a vida dos animais no Sado: “A alimentação não é um problema. Ainda recentemente uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro concluiu que o estado de saúde dos golfi nhos é boa. Existe alimento em abundância, desde chocos, taínhas, lulas, crustáceos. A comunidade tanto anda dentro do rio como se desloca ao longo da costa de Troia, por vezes muito para Sul. Também anda na zona do Portinho da Arrábida. A qualidade da água é boa. Muito melhor do que aquela que era verifi cada nas décadas de 1980, 1990 e 2000. Mas há sempre uma outra quantidade de fatores que podem determinar o crescimento ou diminuição da comunidade. Por vezes há animais que se ausentam durante um período longo, sem que se tenha ainda percebido porquê. Só consideramos situação de abandono do grupo se forem ultrapassados dois anos sem retorno, porque já tivemos situações em que um indivíduo se ausentou durante muito tempo e depois regressou”.
A atual comunidade de golfinhos do Sado é, ao contrário do que sucedia há pouco tempo, considerada jovem. Existe um número indeterminado, mas signifi cativo, de fêmeas em idade reprodutiva. São estes exemplares que têm vindo, progressivamente, a substituir os animais mais velhos. A última morte ocorreu já este ano. Tratava-se de uma fêmea que já tinha mais de 50 anos de idade, que é a esperança de vida determinada para a espécie.
Manancial para académicos e operadores turísticos
A comunidade de golfinhos do estuário do Sado revela-se de enorme importância para a comunidade científica nacional, mas também para o setor turístico-marítimo que ali opera. No entanto, neste último caso, são estes mesmos intervenientes que, de algum modo, podem contribuir para alguma perturbação.
“Sim, durante o verão os animais podem estar sujeitos a uma enorme pressão devido à proximidade das embarcações turísticas e ao modo como algumas pessoas reagem perante o avistamento. É preciso compreender que os golfinhos também precisam de ter o seu espaço, que precisam de reunir as condições necessárias para se alimentarem, para se deslocarem ou para repousarem”, disse Sofia Palma, lembrando, no entanto, que não existe conhecimento de nenhum atentado propositado ao bem-estar dos golfi nhos.
Um operador turístico contactado pelo nosso jornal e que solicitou anonimato disse que levar grupos para observar golfi nhos e baleias é hoje “um negócio que não pode deixar de existir, sob pena de muitas empresas terem de deixar de trabalhar”. “As pessoas vêem com a ideia de ver e fotografar os golfi nhos e nós temos de os tentar conduzir até eles, dando-lhes condições a bordo, mas também muitas recomendações para que não interfiram com a vida dos animais. Por vezes torna-se difícil fazê-los entender que não nos devemos aproximar tanto quanto desejam”, afi rmando ainda que atualmente uma viagem de avistamento pode custar por cabeça entre “os 40 e os 140 euros”. “Tudo depende do tempo da viagem, dos locais percorridos e do que é facultado a bordo”.
Mas não é só para o negócio que serve o avistamento e acompanhamento de golfi nhos no Sado. A técnica do ICNF contactada pelo nosso jornal refere que a importância da atual comunidade se mede também pelos meios disponibilizados semanalmente para garantir o seu bem- -estar.
Arrojamentos são frequentes na costa
A morte e arrastamento para a costa de todo o país de animais marinhos de grandes dimensões é muito mais frequente do que se possa pensar. Trata-se de um facto que levou mesmo o Estado a organizar, no início desta década, a Rede Nacional de Arrojamentos.
O distrito de Setúbal é servido por duas das cinco unidades nacionais, a de Lisboa e Vale do Tejo e a do Alentejo, sendo que ainda no último fim-de-semana foi chamada uma equipa à costa de Grândola para recolher o corpo de uma baleia que se encontrava entalada numa zona rochosa.
Estas unidades, que atuam em coordenação com a Polícia Marítima e as capitanias portuárias, têm por missão recolher animais mortos e feridos, impedindo, no primeiro dos casos, problemas para a saúde pública nos locais onde os cadáveres surgem e até eventuais problemas para a navegação.
“O aparecimento de golfinhos mortos nas praias é um fenómeno frequente. Mas não são apenas os golfi nhos que dão à costa. Há, quase todas as semanas, avistamentos de carcaças de baleias, botos, tartarugas. Por vezes também são avistados animais que aparentam estar doentes ou desorientados”, disse um dos responsáveis da uma unidade contactada.
Em cada embarcação, conforme explicou Sofia Palma, viaja sempre um veterinário. É por intermédio das equipas da rede de arrojamentos que se recolhem amostras, que se fazem necrópsias e se elaboram relatórios, tentando-se apurar as causas que constituem uma fonte de informação sobre a biologia e a ecologia dos mamíferos marinhos.
De acordo com o ICNF, as causas mais frequentes dos arrojamentos são provocadas por doenças, por ferimentos, por dificuldades de orientação e também devido à ação humana. Neste último caso contam-se episódios provocados por pescadores, mas também por embarcações de todos os géneros, nomeadamente as turísticas.
O ICNF possui números de telefone disponíveis em cada uma das cinco unidades de arrojamento e também algumas explicações sobre o procedimento a adotar quando são encontrados animais vivos ou mortos. Uma das recomendações para animais feridos, sobretudo golfinhos, é a de nunca utilizar loções solares. “Sim, já tivemos casos em que as pessoas, por causa do calor, resolveram colocar protetor solar nos golfinhos”, confirmou o agente contactado.






