Brasileiros regressam à região em força mas com carências

Procuram a margem Sul, onde o preço da habitação é mais barato. O encerramento de estabelecimentos de restauração está a lançar mais gente no desemprego. Emigrantes atuais são mais qualificados.

A comunidade brasileira é a mais numerosa de entre os estrangeiros que residem no distrito de Setúbal, estimando-se que sejam mais de um terço das mais de 66 mil pessoas referenciadas pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).

Os brasileiros são, também, dos imigrantes que atualmente passam por mais dificuldades face à crise que assola o país. A precariedade laboral e os salários baixos que não possibilitam o acesso pretendido à habitação são alguns dos problemas referenciados pelo Semmais.

“Na generalidade acho que os portugueses acolhem muito bem os brasileiros que aqui chegam. Há uma ou outra cara feia, mas há muita gente amigável”, sintetiza Lídia Maya, que gere um salão de cabeleireiro em Setúbal, depois de já ter passado, desde janeiro de 2015, proveniente do Estado de Goiás, por Santiago do Cacém e pelo Algarve.

“Na verdade, ao princípio eu e o meu marido não pensávamos vir para Portugal. Eu preferia um país de língua inglesa. O Canadá ou os Estados Unidos, mas houve a oportunidade de vir para Portugal, onde já estava a minha sogra, e temos feito a nossa vida. Há hospitais, escolas e nem sequer há falta de emprego. O que não favorece são os salários, que são muito baixos”, diz.

Diretamente relacionada com os baixos salários está a questão da habitação, que é outro dos principais problemas focados pela comunidade brasileira da margem Sul. Leonardo Correia, engenheiro informático que chegou a Portugal em 2020, proveniente de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, estabeleceu-se no Laranjeiro, depois de ter passado por Alfama (Lisboa), Costa da Caparica e Estoril. “Aqui (no Laranjeiro) os preços da habitação são mais em conta e a ligação aos transportes também é melhor. Melhor do que no Estoril”, afirma quem entende que a maior dificuldade com que se deparam os imigrantes brasileiros que chegam a Portugal é “não ter nome na praça”. “Já tinha vindo a Portugal em 2015 e sabia que ia gostar de cá viver. Eu e a minha família fomos bem recebidos e não tivemos grandes problemas de adaptação”, reitera.

Dificuldades aumentaram devido à pandemia e à guerra

A presidente da Casa do Brasil, Cyntia de Paula, diz que Setúbal é um dos destinos preferenciais dos brasileiros que chegam ao nosso país e justifica essa escolha com a proximidade a Lisboa, o menor custo da habitação e a vocação turística, que gera emprego na hotelaria e restauração. Refere, no entanto, que nos últimos tempos, devido às perturbações geradas pela pandemia e pela guerra, tem aumentado o desemprego entre a comunidade.

“Temos, de facto, muitos relatos de pessoas que vão para Setúbal devido ao turismo e, sobretudo, por causa dos preços das casas, que são bem mais baratos do que em Lisboa. No Algarve, que juntamente com Lisboa, Setúbal e Porto são as zonas onde residem mais brasileiros, a procura já não é tão grande, uma vez que o emprego é sazonal”, diz a mesma responsável.

Cyntia de Paula afirma que a imigração brasileira é, atualmente, bem diferenciada da que ocorria há alguns anos. “Hoje vem muita gente com qualificações profissionais. O distrito de Setúbal não é exceção à regra. Há muita gente que tem profissões liberais. Há psicólogos, advogados, artistas. Notamos que há muita vontade de participar nas atividades cívicas e culturais. Mas também há um crescente número de pessoas em dificuldades. Muitos já chegam com dificuldades financeiras. Em Lisboa, onde recebemos muitos brasileiros provenientes da margem Sul, estamos a notar um aumento dos sem-abrigo brasileiros. Só no último mês terão sido 15 os que detetámos. O recurso aos nossos serviços para a procura de emprego é, atualmente, de cerca de 100 pessoas por mês”, refere.

Trabalho temporário e mais mulheres

A maior parte dos imigrantes brasileiros em Portugal são mulheres. De acordo com a presidente da Casa do Brasil o sexo feminino representa entre 59 a 61 por cento da comunidade estabelecida no país.

“As mulheres estão em maioria desde 2013. Muitas vêm completar os estudos superiores. A imigração feminina é autónoma”, refere. Cyntia de Paula diz também que a maioria dos brasileiros está incorporada no mercado de trabalho temporário, situação que os torna vulneráveis face às crises sociais, que têm redundado no encerramento de inúmeros estabelecimentos de restauração.

Sobre o número real de brasileiros que residem no país… não existem dados totalmente fiáveis. “Dizem-nos que serão 250 mil. Mas os números do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não serão totalmente fiáveis, uma vez que faltam contabilizar os que já obtiveram a nacionalidade portuguesa e todos aqueles que aguardam pela respetiva documentação. Acredito que, no total, possam estar 400 mil brasileiros em Portugal”.