Zero e Quercus torcem nariz a dessalinizadoras no Litoral

O ministro do Ambiente admite que possa ser construída uma estrutura do género. Os custos energéticos e ambientais são os grandes entraves. Alterar a produção agrícola é solução apontada para minorar falta de água.

As associações ambientalistas não concordam com a construção de uma dessalinizadora no Litoral Alentejano. Não consideram que uma estrutura do género seja benéfica em termos de gastos energéticos nem viável em termos ambientais. Defendem, isso sim, que se altere o modelo agrícola na região, nomeadamente para que se passem a produzir produtos que não impliquem um consumo tão acentuado de água.

O ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro, disse esta semana que a construção de uma dessalinizadora, equipamento que, basicamente, filtra a água até lhe retirar o sal e a tornar potável, é uma forte possibilidade para o Litoral Alentejano, território onde se incluem os concelhos de Grândola, Santiago do Cacém, Alcácer do Sal e Sines, os quais integram o distrito de Setúbal. Mesmo não tendo anunciado o local previsto, o governante deixou claro que o empreendimento terá em conta não só o abastecimento para consumo humano, mas também os setores agrícola e turístico.

Sabendo-se que a agricultura, através do aumento das áreas de estufas, e o turismo, com cerca de uma dezena de grandes projetos já aprovados para a zona costeira, são vetores eco- nómicos em progressão, admite-se que um complexo industrial do género possa ali vir a ser instalado e, de acordo com alguns peritos ambientalistas, originar ou agravar a sustentabilidade.

“Há dois aspetos a ter em conta: os custos energéticos e os ambientais”, explicou ao Semnmais a técnica superior de ambiente da Associação Zero, Sara Correia. “Será que é necessário?”, interroga a responsável. “Fala-se num projeto que possa garantir o abastecimento das populações, mas depois também se referem os novos projetos agrícolas. Isso significa, caso a dessalinizadora trate a água para a agricultura, que a maior parte irá servir as plantações. Os dados que existem referem que as necessidades humanas representam apenas 13 por cento dos consumos de água, enquanto a agricultura consome o restante”, diz.

Para Paulo do Carmo, da Quercus, existem dois aspetos negativos que têm de ser ponderados: “Em primeiro lugar temos de ter em consideração os gastos energéticos desse empreendimento. Em segundo, estão os prejuízos ambientais, uma vez que a água tratada acaba por ser devolvida ao mar após terem sido retirados os sais e adicionados outros componentes nocivos. A salmoura pode causar danos irreversíveis nos ecossistemas”.

Os dirigentes da Zero e da Quercus afirmam desconhecer o eventual projeto que o Governo possa ter para o Litoral Alentejano, pelo que também não conseguem estimar em quanto importaria a construção de uma dessalinizadora (existe uma projetada para o Algarve mas também ainda não se sabe quanto poderá custar). O que se sabe é que, na única estrutura do género em Portugal (na Ilha de Porto Santo) cada metro cúbico dessalinizado tem um custo de 79 cêntimos, dos quais 50 são diretamente relacionados com o custo energético.

“São estruturas potencialmente caras e cujos custos energéticos são os mais relevantes”, diz Paulo do Carmo. Para este ambientalista, caso se avance com a obra, “será necessário que o fornecimento energético seja feito através de uma fonte renovável”, apontando a solar como a mais admissível.

Sara Correia refere, por sua vez, que aos problemas resultantes dos gastos energéticos e ambientais, há ainda a somar o impacto negativo que um projeto pode acarretar para a agricultura do local onde ficar instalado. “A grande necessidade desta água é para os projetos agrícolas, mas será que estes devem ser prioritários? As culturas que se fazem no Litoral Alentejano são, na sua maioria, para exportação e implicam grandes consumos. O que entendo é que seria bem melhor rever o tipo de culturas que se promovem e, em simultâneo, tentar minorar as perdas de água nas atividades agrícolas, as quais atingem cerca de 30 por cento”, afirma.

A mesma opinião é partilhada por Paulo do Carmo: “Temos de ter em conta que a questão da falta de água não se resolve com a construção de centrais de dessalinização. Primeiro, antes de se optar pela construção, é preciso saber quais são as reais necessidades. Em Portugal, por exemplo, a falta de água não se compara com a que existe em determinadas regiões de Espanha. Depois, será fundamental proceder a uma monitorização, sobretudo para se ter uma ideia concreta dos eventuais prejuízos ambientais no mar”.

Alguns dados

Em Portugal continental não existe nenhuma central dessalinizadora. Há um projeto admitido para o Algarve, região onde algumas unidades hoteleiras têm, por iniciativa própria, pequenos equipamentos.

Espanha tem cerca de 700 dessanilizadoras. O preço médio desses equipamentos ronda, de acordo com as estimativas, os 45 milhões de euros

O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas diz que atualmente apenas um por cento de toda a água dessalinizada usa energias renováveis, estimando que até 2040 estas unidades possam contribuir com um acréscimo de 180 por cento nas emissões de carbono.