Agarra que é Trabalhador

Vivemos tempos cada vez mais estranhos. Encontros internacionais entre líderes de Estados, são transmitidos em directo com ciladas e ataques de bullying dos meninos mais fortes e em maior número sobre o menino mais fraco, transmitidos em directo para todo o mundo, qual grupeta de crianças faria, apontando a câmara do telemóvel quando estavam a humilhar o menino desfavorecido e frágil, para poderem colocar nas redes sociais, para satisfazerem a turba. Só que aqui o menino pode ser pobre e precisar dos outros meninos, mas não é frágil, bem pelo contrário, apesar da fragilidade da sua situação global, e levantou-se e foi-se embora.

Mas cá pelo burgo, também estamos a mudar as regras. Onde até aqui se dizia “afarra que é ladrão”, agora faz-se à caça aos trabalhadores. Parece que existe uma nova regra e os deputados e os governantes não podem ter vida laboral, sob pena de a mesma ser imediatamente metida na fogueira pública e se não fez nada de mal, inventa-se, exagera-se ou insinua-se.

Ainda sou do tempo (muito recente) em que para entrar nas listas para a Assembleia da República, tínhamos de ter um curriculum Vitae composto. Claro eu também imaculado, mas agora isso pode ser comprometedor, não vá termos trabalhado em muitos lugares ou com muita gente que tenha ligações com alguma lei que, quiçá, o novo governo ou a Assembleia da República venham propor.

Ah, se forem solteiros, tanto melhor. E não namorem. É menos um motivo de suspeita. Se possível, pede-se que não tenham pais vivos e, os irmãos, enfim, fujam deles, para que não tenham qualquer ligação. Filhos? Fora de questão, porque podem ser beneficiados.

Em bom rigor, o ideal é nunca terem trabalhado. Assim, mesmo, verdinhos e sem vícios ou ligações a nada nem a ninguém. Estou mesmo a ver a próxima composição da AR, com 230 jovens acabados de fazer 18 anos, todos eles puros e impolutos, nem com experiência profissional, nem amorosa,  nem nenhuma. A esses, os jornais não vão encontrar “ligações perigosas”.

Veja-se o “Caso Montenegro”. O nosso PM foi acusado de ter participado numa sociedade que tinha um objecto social que permitia o imobiliário. Todos já esquecemos que era esta a acusação. Afinal não havia qualquer ligação.

Pronto, mas tinha a sociedade. Vamos a ver, desfez-se dela antes muito antes de ser sequer PM, diminuiu a receita da empresa quando passou a PM, não tem nenhuma ligação a empresas do sector público, não angariou um único cliente com o seu ascendente por ser PM, pagou os impostos, declarou o IRS, o IRC (quando era sócio), os colaboradores, etc.

Então de que se queixam? De que passou a sociedade à mulher e beneficiava indirectamente. Verdade que do ponto de vista prático isso acontece, mas não é ilegal. O acto é nulo? Eventualmente. Não o vou discutir juridicamente, mas a verdade é que o que valem são os documentos e a passagem foi registada.

Um dos colaboradores é a mulher de um candidato à C.M. Braga? E trabalhou no escritório de Hugo Soares? E daí, vocês não contratam, numa empresa privada, recorde-se, quem conhecem e quem entendem ter currículo e competência e confiança pessoal? Querem comparar isto aos compadrios no PS que metia toda a família no aparelho de Estado? Aj pois é

Em resumo, nada de ilegal foi encontrado, do ponto de vista ético, a única dúvida que se admite como menos clara é o facto de a sócia ser a sua mulher, mas a receber pelo seu trabalho, declarado, legal, prestado, com clientes privados e não públicos, angariados antes de estar na política activa (Presidente do PSD) e mesmo assim é apelidado de corrupto, como outros?

Uma coisa sei, este caso está a ser tão ou mais escrutinado do que outros, onde notas vivas de muitos milhares apareciam no meio de livros, financiamentos estatais ou europeus a empresas de maridos ou mulheres de ministros eram descobertos e parecia estar tudo bem e, por outros lado, com esta manobra do Chega, deixámos de falar de pedófilos e alegados agressores, violadores, desviadores de malas, entre tantos outros casos que a comunicação social nos tem apresentado.

Paulo Edson Cunha

Deputado PSD