Um problema de comunicação

Queria ou quer, um copo com água ou um copo de água? Começo com dois exemplos frequentes de, digamos, atritos na comunicação que derivam da falta de rigor no uso da linguagem. Ir ao encontro do argumento de alguém é exactamente o oposto de ir de encontro a seja o que for. Eventualmente, em português, refere-se a uma possibilidade; em inglês, eventually significa que vai acabar por acontecer (tem sido muito raro escutar um “eventualmente” no sentido português).

Estes são pequenos exemplos de como a forma mais ou menos rigorosa como nos expressamos pode levar a equívocos ou falhas de comunicação. Pode parecer irrelevante, sobretudo se estivermos a falar de linguagem relacionada com práticas do quotidiano, mas não é, porque a falta de precisão é o ponto de partida para uma compreensão da realidade mais genérica. A crescente desinformação deve-se, em grande parte, ao aproveitamento que se faz da falta de rigor na utilização da linguagem e na sua interpretação, para não falar de uma generalizada dificuldade na análise de conteúdos audiovisuais. Uma compreensão genérica da realidade torna cada indivíduo mais permeável à manipulação. E actualmente, através das redes sociais e de meios de comunicação instantâneos, é mais fácil do que nunca partilhar conteúdos que visam obter reacções emocionais a partir da consciência de que quem os vai receber não vai conseguir desconstruí-los.

O desafio político do presente é um desafio de comunicação e linguagem. Nas redes sociais, tornase evidente que é uma causa perdida tentar aplicar algum tipo de rigor ou precisão perante a indignação tóxica ou a cegueira ideológica (voluntária ou involuntária). Na verdade, não é assim tão diferente de tentar explicar, no café, que “queria” está conjugado no pretérito imperfeito de cortesia, quando do outro lado o único objectivo é demolir a subtileza, rejeitando, por ignorância, uma manifestação de cordialidade. É possível pensar que, nesse café imaginário, a mesma pessoa que rejeita o pretérito imperfeito de cortesia é bem capaz de queixar-se da falta de educação dos clientes que não o usarem. Em todo o caso: é quase sempre infrutífero tentar uma intervenção directa nestes momentos; quando alguém está mesmo convicto e insiste no que acha que está certo, o melhor a fazer é esperar. A disciplina de aguardar pelo momento certo é uma prática muito difícil, não me parece que esteja a ser exercitada como deveria. A política tem sido feita de reacção imediata, da tentativa de contra-viralização, ou seja, da tal discussão inútil que leva ao impasse no café. Mas queria ou quer? Queria ou quer? QUERIA OU QUER?

Às vezes mais vale mudar de parágrafo, ou de café. Optar por ficar em silêncio, como aqueles sábios nos filmes que ficam a ponderar durante vários dias antes de responder. Estou a escrever isto e admito que tenho muita dificuldade em fazer o que estou a advogar. Até porque é um facto que há momentos em que faz sentido sermos frontais, disruptivos, conflituosos. Mas não podemos ceder à tentação de combater o fogo com fogo, sobretudo nestes tempos abrasadores. É uma garrafa de água, por favor. Bem gelada.

Levi Martins – diretor da Companhia Mascarenhas-Martins