Sondagens, o termómetro avariado da democracia

O conhecimento é algo que não ocupa lugar. Nem tem prazo de validade. E talvez por isso me irrite tanto ver como, em pleno século XXI, continuamos a cair nas mesmas armadilhas de sempre. Esta semana voltaram a sair sondagens para a Presidência da República. E, como era de esperar, lá veio a mesma lengalenga, gráfi cos bonitos, percentagens redondas e certezas ocas que se desfazem ao primeiro contacto com a realidade.

Olhem bem para estas sondagens: um candidato aparece com 19,4%, outro com 18,7%, outro com 15,9%, mais dois entre os 9,5% e os 14,8%, e o resto nem aparece. Parece tudo muito científico, muito arrumado, muito “isto é o que o país pensa”. Mas depois fazemos a pergunta séria, para que servem as sondagens hoje em dia? E é aqui que o castelo de cartas cai.

Alguém me conseguirá dar a resposta certa a todas as respostas erradas que nos dão as sondagens? A cada ciclo eleitoral repetimos o mesmo ritual. Universidades, centros de estudo, jornais, televisões, todos atiram números para cima da mesa como se fossem verdades absolutas. E nós, pacífi cos, lá ficamos a ouvir horas de comentários sobre previsões que, no fim, raramente batem certo.

Basta lembrar o que já vimos pelo mundo fora: Milei na Argentina, Trump nos EUA, o Brexit no Reino Unido. E mesmo por cá, das autárquicas às eleições do Benfi ca, as sondagens falharam como quem dispara no escuro. Mas insistimos em levar tudo isto a sério. Fazemos análises, discussões, debates intermináveis e, no fim, o povo decide ao contrário.

E agora, com estas novas sondagens presidenciais, lá voltamos ao mesmo erro, tentar encaixar sentimentos humanos dentro de percentagens. Esquecemos que as pessoas mudam de opinião, não respondem da mesma forma ao telefone e, muitas vezes, nem dizem o que pensam. Dizem o que é socialmente aceitável, ou simplesmente despacham o inquérito.

A verdade é esta, as sondagens tornaramse um placebo democrático. Agradam aos partidos, alimentam os comentadores e entretêm o público. Mas não medem a alma do país. Medem apenas o humor momentâneo de quem responde. Não captam dúvidas, medos, hesitações ou convicções enraizadas. Captam apenas números, e números, por si só, não pensam.

Por isso digo com toda a frontalidade, se o conhecimento não ocupa lugar, a ignorância também não devia ocupar tanto espaço no debate público. Já era tempo de percebermos que a sociedade mudou e que a nossa forma de medir a opinião pública fi cou parada no século passado.

Afinal, para que servem as sondagens? Para muito pouco. No máximo, servem para nos lembrar que a liberdade do povo ainda é maior do que qualquer previsão. Felizmente.

E essa liberdade, meus amigos, não se mede em percentagens.