“Agarrar as novas oportunidades para uma década de progresso”

No momento em que a economia da península enfrenta transformações profundas e desafios estruturais, a AISET reforça o seu papel como voz ativa do setor industrial e como agente impulsionador do desenvolvimento regional. Em entrevista, Nuno Maia identifica prioridades, tendências e oportunidades estratégicas que marcarão o futuro económico do território, num contexto definido pela transição energética, digital e pela reorganização territorial das NUT II e III e criação da CIM.

Num momento em que o tecido empresarial de Setúbal continua a evoluir, quais têm sido as prioridades da AISET para reforçar a competitividade regional?

Sendo uma pequena associação empresarial regional, a AISET assume um papel sobretudo político e institucional, dedicado à valorização e dinamização dos seus associados e da atividade industrial, um setor que continua, em geral, pouco reconhecido. A nossa prioridade é destacar, promover e defender a indústria, garantindo que as autoridades lhe conferem a devida importância. Não somos uma entidade prestadora de serviços, mas uma estrutura de suporte ao ecossistema industrial. Naturalmente, a captação de novos associados é uma atividade permanente, pois quanto maior for a base associativa, maior é a nossa capacidade de intervenção e representatividade.

Que tendências económicas identifica no distrito e como é que as empresas estão a posicionar-se para lhes responder?

As três grandes tendências da indústria estão identificadas desde a pandemia, quando a União Europeia decidiu reforçar a industrialização dentro das suas fronteiras: a transição carbónica e energética, a transformação digital e a circularidade de recursos e processos, reduzindo a dependência de matérias-primas de base. O distrito tem boas oportunidades nestas áreas, mas também muito trabalho pela frente, sobretudo em setores como o papel, cimento, metalomecânica e naval, que ainda estão em processo de adaptação, mas a realizar investimentos. Este esforço representa uma vantagem competitiva, especialmente porque as empresas estão localizadas a meia hora da estrutura portuária, com capacidade para acolher investimentos nas áreas das energias eólicas offshore e da economia azul. Existe ainda outra tendência relevante: o potencial de desenvolvimento da indústria de defesa e segurança, uma vez que setores como a metalomecânica, química e eletrónica têm condições para integrar facilmente este novo nicho de atividade.

A atração de investimento é central para a região. Que fatores considera determinantes para tornar Setúbal um território ainda mais apelativo para novos projetos?

Para atrair investimento é necessário atuar em várias frentes. Desde logo, é fundamental aumentar a agilidade dos processos de decisão dos organismos públicos, que frequentemente atrasam licenciamentos. Outro ponto decisivo é a competitividade dos financiamentos, que têm sido insuficientes na região; para isso, será crucial aproveitar os fundos comunitários a partir de 2028, essenciais para captar e instalar novas empresas, beneficiando da localização privilegiada e da capacidade portuária. Adicionalmente, há ainda terrenos no território que não estão disponíveis para uso industrial, o que torna urgente uma revisão profunda dos planos diretores municipais. Não é lógico que, estando a apenas 20 quilómetros da capital, existam áreas tão extensas classificadas como reserva ecológica ou agrícola, sobretudo quando determinadas atividades, como a exploração do sobreiro, por exemplo, não geram emprego nem valor acrescentado significativo. É preciso encontrar soluções equilibradas, incluindo medidas de compensação, como a replantação. Com excelentes infraestruturas e vias de comunicação, tradição industrial, massa crítica e um porto de referência, Setúbal é um território privilegiado para o investidor estrangeiro, como ficou demonstrado com o projeto “Aurora”. Que venham muitos mais projetos dessa dimensão.

Como avalia a colaboração entre empresas, instituições de ensino e entidades públicas na promoção da inovação e do desenvolvimento económico?

Trata-se de um processo contínuo, nunca concluído. Ainda assim, a região conta com instituições relevantes, como o IPS, o polo universitário do Monte da Caparica, a ATEC e várias escolas profissionais, que têm desempenhado um papel importante nesta cooperação. O que falta são programas mais atrativos e estruturados que unam ecossistemas de empresas, ensino, formação e emprego de forma mais eficaz.

A criação da nova CIM e a redefinição da NUT II podem alterar significativamente a forma como a região acede a financiamento europeu. Que impacto antecipa para as nossas empresas?

A reorganização das NUT II e III foi fundamental para permitir que a região assumisse o seu rumo e criasse um verdadeiro roteiro de progresso. Os dados recentes do INE confirmam o que defendemos há anos: somos uma região deprimida, com um PIB per capita equivalente a 67% da média da União Europeia, o que coloca Setúbal na categoria de região de coesão. Com o próximo quadro comunitário de apoio, cujo desenho começará a ser trabalhado a partir de 2026, esperamos novas e significativas oportunidades. A AISET está já a promover, com a Universidade Católica, um estudo para uma estratégia regional da península, orientado precisamente para captar financiamento europeu. Estamos otimistas, até porque as principais empresas da região têm planos alinhados com estes modelos estratégicos. Somam-se ainda os grandes investimentos públicos previstos, como o novo aeroporto, dos quais a indústria certamente beneficiará.

De que forma a AISET está a acompanhar o processo de constituição da CIM e a reorganização territorial da NUT II?

Estamos a acompanhar de perto todo o processo. Se, no início do próximo ano, já existirem estruturas implementadas e passos concretos, será uma excelente notícia. O Governo terá de iniciar o diálogo com Bruxelas sobre o novo quadro comunitário ainda durante o próximo ano, pelo que é essencial que a região tenha representação e voz própria nesse processo.

Quais são as ambições da AISET para os próximos anos?

Daqui a dez anos gostaríamos de ver empresas mais robustas, com maior volume de negócios, mais valor acrescentado bruto, competitivas, sustentáveis e geradoras de emprego qualificado. Queremos também que a AISET continue a representá-las com maior peso junto do setor público, onde ainda há decisores que valorizam insuficientemente a atividade industrial, apesar da sua relevância para o desenvolvimento e coesão territorial. E, mesmo não sendo responsabilidade direta da associação, desejamos que a indústria contribua de forma mais significativa para combater as bolsas de pobreza que persistem no distrito.