“Setúbal e Sines estão no centro da nova estratégia portuária nacional”

Em entrevista ao Semmais, o secretário de Estado das Infraestruturas afirma que os portos de Setúbal, Sines e da margem Sul do Tejo são fundamentais para a competitividade da economia portuguesa, com investimentos superiores a 4 mil milhões de euros até 2035 e aposta em intermodalidade, sustentabilidade e digitalização, tornando o distrito num motor logístico e industrial do país.

Comecemos pelo papel dos portos de Setúbal e de Sines. Como avalia a sua relevância na competitividade nacional e na economia do distrito?

Os portos de Setúbal e de Sines, a que se somam as infraestruturas portuárias do Porto de Lisboa localizadas na margem Sul, são hoje absolutamente centrais para a competitividade do país e para a dinâmica económica do distrito. Em conjunto, funcionam como a principal porta atlântica do comércio internacional português. Integram cadeias logísticas globais e sustentam a atividade das maiores empresas industriais, logísticas e exportadoras da região.

A Estratégia PORTOS 5+ reforça precisamente essa importância, ao apostar num sistema portuário mais inteligente, sustentável e competitivo, com melhor integração intermodal e maior capacidade de atração de investimento. Estamos a falar de cerca de 4 mil milhões de euros até 2035, sendo 75% investimento privado, e do lançamento de 15 novas concessões.

E que papel desempenha cada um destes portos na prática?

Sines é o maior porto nacional em tonelagem movimentada. Cresceu 11% em 2024 e representa 54% de toda a carga movimentada no país. Está a preparar um novo ciclo de expansão com o Terminal XXI e o futuro Terminal Vasco da Gama. Já Setúbal é decisivo para a economia do distrito, sustentando milhares de empregos e servindo setores como o automóvel, metalomecânico, químico, papel, cimentos, agroalimentar e logístico. A sua localização no corredor atlântico ibérico e o acesso ferroviário e rodoviário tornam-no altamente competitivo.

Importa ainda referir os terminais do Porto de Lisboa na margem Sul, Trafaria, Sovena em Almada e o terminal de carga líquida da Chane no Barreiro, todos com investimentos acima dos 40 a100 milhões de euros. No conjunto, estas infraestruturas representam cerca de 70% da movimentação portuária nacional, ou seja, aproximadamente 60 milhões de toneladas anuais.

O porto de Setúbal tem vindo a anunciar investimentos importantes. Que projetos de expansão e modernização estão previstos?

São vários e todos estruturantes. A expansão do Terminal Ro-Ro, num investimento de 60 milhões de euros, permitirá atingir cerca de 700 mil veículos por ano e reforçar o transporte marítimo de curta distância, reduzindo milhares de camiões nas estradas europeias. Isto é crucial para o cluster automóvel e metalomecânico.

Segue-se a nova concessão do Terminal Multiusos da Mitrena, com 80 milhões de euros, que aumentará a capacidade de granéis, carga geral e carga de projeto. A extensão da ferrovia até ao terminal reforça a intermodalidade e reduz custos.

Temos ainda a modernização do estaleiro da Lisnave, um investimento que pode chegar aos 300 milhões de euros. O objetivo é criar um polo de excelência na reparação e construção naval sustentável, incluindo navios de nova geração, soluções ligadas a energias limpas e até áreas militares. Este plano inclui também nova ligação rodoviária e ferroviária ao complexo industrial.

E no que toca às acessibilidades e à transição energética?

Há melhorias em curso nas ligações porto–ferrovia–rodovia, bem como no desenvolvimento de plataformas logísticas e portos secos no hinterland. Já na transição energética, o distrito está integrado em projetos de eletrificação de cais (OPS), zonas de produção de energias renováveis, comunidades energéticas e processos logísticos mais verdes baseados na intermodalidade e na digitalização. É essencial para cumprir metas europeias e responder às exigências dos carregadores internacionais.

Falemos agora da relação com o tecido empresarial. Qual é o impacto dos portos nas maiores empresas do distrito?

É direto e decisivo. Setores como o automóvel, metalomecânico, químico, energético, agroalimentar, florestal e logístico dependem da eficiência portuária para exportar, importar matérias-primas e operar cadeias just-in-time. A competitividade do distrito está intrinsecamente ligada ao desempenho dos portos.

O Governo naturalmente pretende reforçar esta ligação?

Sem dúvida. Estamos a promover estruturas de governação partilhada, como comunidades portuárias, academias portuárias e fóruns empresariais. Também queremos reforçar parcerias em mobilidade, energia, ambiente, ordenamento e formação, além de fomentar projetos de inovação e digitalização envolvendo portos, empresas e centros de conhecimento.

A capacidade portuária e a eficiência dos serviços são hoje fatores críticos na escolha de localização de novas indústrias e centros logísticos. A proximidade simultânea aos portos de Setúbal, Sines e Lisboa coloca o distrito numa posição competitiva única — que poderá ser ainda mais reforçada com a criação de uma nova NUT regional.

O crescimento portuário traz também desafios sociais. Que políticas estão a ser pensadas para garantir mais emprego qualificado no distrito?

Posso dizer-lhe que o foco está em três eixos. O primeiro é o emprego qualificado, promovendo atividades de maior valor acrescentado nas áreas portuárias e logísticas, como engenharia, manutenção industrial avançada, energias renováveis e economia azul.

O segundo é a formação especializada, reforçando a oferta em parceria com politécnicos, universidades, IEFP e empresas. Queremos cursos técnicos superiores, pós-graduações e formação dual em áreas como operação portuária, tecnologias digitais, cibersegurança ou logística.

O terceiro eixo é o desenvolvimento equilibrado do território. As infraestruturas portuárias funcionam como âncoras de crescimento, estimulando parques industriais e logísticos noutros concelhos, articulando estratégias portuárias com planos municipais e devolvendo áreas sem vocação portuária às autarquias.

Para terminar: como imagina o distrito de Setúbal em 2030?

Imagino um distrito reconhecido como um dos grandes motores económicos de Portugal. Com portos modernizados, maior capacidade de movimentação, operações mais eficientes e sustentáveis, forte digitalização e plataformas logísticas intermodais de referência. Imagino também um território mais equilibrado, com melhor qualidade de vida, mais emprego qualificado e maior coesão.

Que condições são essenciais para atingirmos esse patamar?

Diria três condições. A primeira, executar os investimentos previstos, garantir estabilidade regulatória para atrair privados e articular políticas públicas, numa visão integrada entre economia, portos, indústria, formação, habitação e ambiente. Somando a isto, é preciso uma cooperação estreita entre Governo, autarquias, empresas e instituições científicas, o distrito consolidará a sua posição como uma das regiões económicas mais dinâmicas do país, sendo não apenas mais competitivo, mas também mais equilibrado socialmente, mais sustentável e mais influente no posicionamento internacional do nosso país.

 

Aposta na habitação é prioridade para acompanhar o crescimento económico.

Hugo Espírito Santo considera que a habitação é uma prioridade no quadro da pressão sobre a atividade económica. E sublinha que o Governo está a “aumentar a oferta de habitação acessível através de programas públicos e de parcerias com privados, mobilizando solo disponível e incentivando a construção a custos controlados”. Também a reabilitação urbana, “sobretudo em frentes ribeirinhas e antigas áreas industriais”, passou a ser, refere, “uma oportunidade para compatibilizar crescimento económico com qualidade urbana”. “Estamos também a trabalhar na melhoria da mobilidade interna, permitindo que trabalhadores vivam em diferentes concelhos sem custos desproporcionados. Além disso, várias empresas, especialmente ligadas ao porto de Sines, estão já a desenvolver habitação própria para os seus trabalhadores”, refere. E afirma que “o distrito tem condições para ganhar um papel mais relevante nos programas nacionais de habitação acessível”, sendo que a articulação entre emprego qualificado e preços compatíveis será decisiva para atrair talento.