Os negócios entre o empresário Hugo Pinto, investidor da SAD do Vitória FC, e a sua empresa, Importantaltura, voltam a colocar nuvens negras sobre o histórico clube setubalense. Uma investigação do jornal Público aponta para prejuízos milionários para a Câmara de Setúbal, resultantes de terrenos doados para salvar o clube e que acabaram na posse da empresa do investidor.
Os terrenos, inseridos no Plano de Pormenor das Praias do Sado, foram avaliados pela autarquia em 801.233,55 euros – cerca de 12.300 euros por lote. No entanto, o Valor Patrimonial Tributário (VPT) era significativamente superior, entre 18.118 e 18.183 euros por parcela. Juristas ouvidos pelo Público alertam que esta discrepância fragilizava a defesa do interesse público.
A alienação destes terrenos, no valor de 800 mil euros, ocorreu em maio de 2023, dois anos depois da assinatura do acordo entre o Vitória FC e a Importantaltura, que previa a cedência de 89% da SAD e de 41 lotes de terrenos no Vale do Cobro e no Estádio do Bonfim. Em troca, a empresa comprometia-se a assumir 63 milhões de euros de passivo do clube e a investir no licenciamento e construção de novos recintos. Nenhum destes compromissos foi cumprido.
Descida à distrital e tensões com Hugo Pinto
A relação entre o Vitória FC e Hugo Pinto deteriorou-se com a falha na inscrição na Liga 3 para a temporada 2024/25, que levou o clube a cair para as competições distritais. A SAD entrou em insolvência e acabou extinta. A Importantaltura passou então a reclamar mais de 13,6 milhões de euros em créditos sobre a sociedade, cuja origem não está totalmente clara na documentação analisada pelo Público.
Hugo Pinto havia declarado, em 2021, ter investido cerca de dois milhões de euros para permitir que o clube obtivesse declarações de não-dívida junto da Autoridade Tributária e da Segurança Social. Em 2023, a SAD aceitou um empréstimo de 1,3 milhões de euros da Importantaltura, parcialmente pago com o valor dos terrenos das Praias do Sado.
Em comunicado, a atual direção do Vitória FC desvincula o clube de Hugo Pinto e da Importantaltura, afirmando que não existem fundamentos legais para reconhecimento da dívida. O clube assegura possuir uma declaração assinada pela gerência da Importantaltura, na qual a sociedade renuncia “a todo e qualquer direito sobre o Vitória Futebol Clube”.
Venda dos topos à Mirante Sideral
A reportagem do Público questiona também o acordo com a Mirante Sideral, empresa que adquiriu os topos do Estádio do Bonfim por 25 milhões de euros para um projeto imobiliário. O jornal destaca que a sociedade tem capital social de apenas 500 euros e nenhuma atividade relevante conhecida. O advogado da empresa confirmou tratar-se de uma “empresa-veículo” representando investidores árabes, sem revelar identidades.
O Vitória FC afirma ter exigido à Mirante Sideral o pagamento à Autoridade Tributária e a última tranche do sinal do negócio, “para tranquilizar todos os agentes interessados e dar confiança ao clube e à Câmara Municipal de Setúbal”. Carlos Guimarães Pinto, líder da empresa, comprometeu-se a analisar o pedido e reiterou que a Mirante Sideral “não tem qualquer ligação à Importantaltura”.
Apesar das dúvidas levantadas pelo Público, o Vitória FC garante que a Mirante Sideral cumpre “rigorosamente” as prestações do plano aprovado no novo PIRE e assumiu o pagamento das dívidas do clube. A direção defende que o projeto imobiliário nos topos do Bonfim é “essencial para a sobrevivência do Vitória Futebol Clube”, garantindo receitas para cumprir as obrigações do PIRE, que somam cerca de 9,3 milhões de euros.






