Ainda é cedo para apurar a extensão real dos danos e dos prejuízos económicos. O Sado invadiu a zona ribeirinha de Alcácer e o mar rebentou o Cais Palafítico da Carrasqueira e destruiu duna na Praia de São João da Caparica. Bombeiros receberam milhares de pedidos de socorro em todo o distrito. Em Sesimbra o acesso ao porto de abrigo está condicionado devido a deslizamento de terras
Os estragos causados no distrito pela depressão ‘Kristin’ estão muito longe de estarem apurados e calcula- -se que possam tornar-se ainda mais avultados até domingo, altura em que as águas dos rios, em toda a Península e no Alentejo Litoral, podem voltar a inundar as margens e o vento pode voltar a soprar com rajadas acima dos 100 quilómetros/hora. Alcácer do Sal foi a localidade mais mediatizada devido ao galgamento do Sado, mas a destruição marcou presença em quase todo o lado. É, no entanto, em São João da Caparica, no concelho de Almada, que persistem agora algumas das maiores preocupações, com o mar a ameaçar destruir por completo o sistema dunar.
Alcácer do Sal foi mesmo muito fustigada, devido ao alagamento das ruas mais próximas do rio Sado, que se transformaram, no final da semana passada e também na última terça-feira, numa espécie de pistas de canoagem, com as embarcações dos bombeiros – e de particulares que quiseram juntar-se às operações de socorro – a substituírem os automóveis. Mais do que os danos causados nos muros e pavimentos, os comerciantes locais queixam-se dos muitos Depressões ‘Kristin’ e ‘Leonardo’ semeiam caos no distrito dias que terão de passar ainda de portas fechadas. É, dizem, um golpe duro para o comércio de uma cidade muito dependente de quem a visita e que agora se encontra quase isolada. Esse mesmo isolamento foi de algum modo explicado ao Semmais pela presidente da autarquia. Clarrise Campos, ainda antes de um novo galgamento do rio na terça-feira devido à maré alta. A autarca relatou a existência de diversas estradas cortadas por ação da subida dos cursos de água e queda de árvores. “A Câmara Municipal está a trabalhar em conjunto com todos os agentes que integram os serviços de Proteção Civil e também com a APA (Agência Portuguesa do Ambiente) e diversas associações de regantes, de modo a que as necessárias descargas das barragens sejam efetuadas de modo a minorar os prejuízos”, explicou.
Na ocasião, a edil lamentou também algum alheamento a que o concelho está a ser votado por parte do Governo. “Contactei o secretário de Estado da Proteção Civil, mas até agora (no início da semana) não obtive qualquer resposta. Valeu o facto de a ministra do Ambiente ter ficada sensibilizada e de ter sido decretado o estado de emergência”, adiantou. “Neste momento falta o fornecimento de energia elétrica em algumas zonas ribeirinhas. É um problema que todos estão empenhados em solucionar o mais rápido possível. É justo salientar os apoios recebidos de diversas entidades, nomeadamente da APA, GNR, Marinha, que colocou diversos meios à disposição, e até da Entidade Regional de Turismo”, frisou Clarisse Campos.
A intempérie levou também ao desalojamento de 34 pessoas no concelho alcacerense, sendo que, segundo a presidente, “20 são idosos que tiveram de ser retirados de um lar”. “As pessoas estão instaladas em alojamentos locais, em unidades hoteleiras e em instalações da Santa Casa da Misericórdia”, disse ainda a presidente do município, lembrando que os prejuízos para as populações não são apenas os diretos, porque abrangem um sem-número de atividades que acabam por ficar suspensas. É esse o caso, por exemplo, das 28 famílias de pescadores da Carrasqueira. O Cais Palafítico, estrutura fundamental para a atividade, ficou praticamente destruído devido ao estado alteroso do mar e desconhece-se quando é que as embarcações podem voltar à faina.
Para já, as atenções centram-se na reconstrução, decorrendo uma campanha para angariação de madeira. “Temos de ter em consideração que estas pessoas estão há muito privadas de trabalhar e agora, com a junção da água doce à água salgada, nem sequer conseguem capturar chocos, que são uma das suas principais fontes de rendimento”, adiantou.
Dunas da Costa e Porto de Abrigo de Sesimbra geram preocupações

As depressões ‘Kristin’, primeiro, e ‘Leonardo’, depois, não se limitaram a causar estragos em Alcácer. Da Costa da Caparica surgiram, no início da semana, relatos de um problema ambiental sério que há muito se fazia anunciar e que acabou por se confirmar devido a atrasos relacionados com a deposição de areia no fundo do mar.
“Vivemos um momento preocupante. Estamos em alerta vermelho até domingo”, sintetizou ao nosso jornal a presidente da Junta de Freguesia da Costa da Caparica, Vanessa Krause, reportando-se aos avanços do mar que, nos últimos dias, devastaram as dunas nas praias em São João da Caparica. “O momento que vivemos agora deve-se aos atrasos na reposição de areia. Se tal tivesse acontecido quando estava previsto, agora não estávamos a falar desta destruição. Houve um processo preventivo que deveria ter sido executado há meses mas que foi atrasado por motivos que desconheço e que depois de ter sido iniciado acabou por ser suspenso devido ao mau tempo. Agora, só para Abril é que a deposição da areia deve recomeçar. Possivelmente os trabalhos irão demorar e encarecer, uma vez que torna-se necessário repor o que já havia sido colocado”, lamentou a autarca.
Também em Sesimbra foram registadas algumas anomalias de monta. Uma primeira notícia deu conta de que um edifício localizado numa arriba da Praia da Califórnia estaria em perigo de ruir. A Câmara Municipal desmentiu a informação veiculada por um canal televisivo e adiantou que existiu, de facto, um deslizamento de terras num local monitorizado pela APA, mas que o mesmo não colocou em causa a segurança do prédio, bem como de pessoas e bens.
Mais grave foi o deslizamento que acabou por condicionar o acesso ao Porto de Abrigo. Por precaução, a Câmara Municipal interditou o acesso de peões e de viaturas com mais de 3,5 toneladas. A juntar à preocupação dos eventuais danos que o deslizamento possa causar, a edilidade salienta a importância de manter o local operacional, pois trata-se do acesso ao porto de pesca, um dos mais movimentados do país e de onde diariamente partem dezenas de camiões de pescado.
Os problemas causados pelas tempestades motivaram, de resto, milhares de outros pedidos de intervenção dos bombeiros em toda a Península.
Em declarações ao nosso jornal, o comandante dos serviços distritais de Proteção Civil, José Luís Bucho, informou que aos problemas relatados na Costa da Caparica juntam-se também algumas ocorrências mais avultadas. “Tivemos deslizamentos de terras na Arrábida, o telhado de um estabelecimento comercial do Barreiro que voou, inundações de superfície um pouco por todos os concelhos, abatimentos de pavimentos, quedas de árvores, de linhas elétricas e de comunicações”, referiu.
Dores Meira andou pelo terreno e só quer calcular prejuízos mais tarde

A presidente da Comissão Distrital de Proteção Civil e presidente da Câmara Municipal de Setúbal, Maria das Dores Meira, foi uma das primeiras entidades oficiais a inteirar-se no terreno sobre a gravidade da intempérie em Alcácer do Sal. Em declarações ao Semmais, a autarca diz que este não é a altura de comentar prejuízos financeiros, mas sim o momento para dar auxílio a quem precisa.
“Esta foi uma situação atípica que está a afetar várias zonas do país e que reforça a necessidade de nos prepararmos como comunidade para podermos fazer face a estes fenómenos, disse.
Quanto ao distrito, a responsável salientou todo o apoio de proximidade que foi possível levar às situações mais críticas, no sentido de “mitigar estragos e ajudar quem precisa”, enfatizando a “situação muito difícil”, que se fez sentir no concelho alcacerense que a fez mesmo deslocar-se ao terreno.
Para a mesma responsável “este não é o momento para comentar o valor financeiro de estragos nem de pensar os planos para o futuro”, já que as prioridades estão todas apontadas para o apoio e auxílio as pessoas atingidas. “Apelo às populações para que sigam as instruções das autoridades, em particular da Proteção Civil, para garantirmos a segurança de todos”, disse.
Depois de Maria das Dores Meira, também o ministro das Infraestruturas, Miguel pinto Luz, se deslocou a Alcácer do Sal. Tratou-se de uma visita relâmpago, altura em que o governante foi informado pelas autoridades da Proteção Civil local sobre a articulação possível das várias ações em desenvolvimento naquela área, nomeadamente a disponibilização de meios de socorro que têm sido colocados à disposição da autarquia, bem como as preocupações com as descargas das barragens de Vale do Gaio, Pego do Altar, Odivelas e Campilhas.
No contacto com o ministro, a presidente da Câmara, Clarisse Campos, sublinhou as difi culdades de circulação no concelho, dando como exemplo os cortes das vias que conduzem à aldeia de São Romão, da ligação entre Arêz e Vale do Guizo e do acesso à ponte rodoviária de Alcácer do Sal.
Moita socorre em casa e acode devastação em Leiria

Uma equipa de funcionários da Câmara da Moita composta por 50 pessoas deslocou-se para Leiria, a região do país mais afetada pelas depressões atmosféricas, para ajudar em diversas operações de limpeza que decorrem naquela capital de distrito. “Solidariedade é isto, ajudar quem mais precisa mesmo quando também não possuímos meios em abundância”, disse ao Semmais o presidente, Carlos Albino. Para além da deslocação de bombeiros, equipas de limpeza e especialistas na organização de espaços verdes, o autarca explicou que houve recolha de diversos tipos de donativos, nomeadamente uma tonelada de alimentos destinados a animais de companhia. Sobre os efeitos do mau tempo no concelho ribeirinho, Carlos Albino disse que caíram diversas árvores e que algumas ainda se encontram por remover no Parque José Afonso. “Houve uma escola e um colégio que tiveram de fechar durante um dia, tal como um centro de saúde, mas atualmente já está tudo a funcionar com normalidade. Está tudo sanado”, frisou.






