Setúbal e as suas grandes obras

Nas últimas semanas, Portugal foi fustigado por tempestades de chuva e vento como há muito não se via. Houve regiões isoladas, estradas cortadas e cenários de destruição que fazem lembrar tempos de guerra, como sucedeu em Leiria. No nosso distrito também assistimos a situações inéditas, Alcácer do Sal ficou praticamente submersa, com imagens impressionantes, como a praça de touros transformada numa autêntica piscina. Setúbal não escapou, registaram-se quedas de árvores, aluimentos de terras e cortes de circulação, nomeadamente no acesso à Secil e ao Hospital do Outão.

Perante este quadro, há que reconhecer o que foi bem pensado e bem executado. As bacias de retenção construídas na cidade, no Parque da Várzea, em Vanicelos e junto ao campo de râguebi, mostraram a sua utilidade. Foram obras planeadas com visão de futuro e para momentos de crise como os que atravessámos. Como cidadão setubalense, é justo agradecer a quem as decidiu e concretizou. Na altura, a autarquia liderada pela CDU, com Maria das Dores Meira na presidência, percebeu o risco e agiu preventivamente. Os factos mostram que foi uma decisão acertada.

Mas nem tudo segue a mesma linha de bom senso estratégico. Se nas infraestruturas de retenção houve visão, o mesmo não se pode dizer da política recente para as vias de circulação. Nos últimos anos, várias avenidas de acesso à baixa foram estreitadas, numa altura em que o número de viaturas aumenta e os transportes públicos continuam sem cobertura total nem qualidade consistente. Avenidas como a Alexandre Herculano e a República da Guiné-Bissau passaram de quatro para duas vias. A Av. dos Combatentes fi cou tão apertada que dois autocarros mal se cruzam. E prepara-se agora o mesmo destino para a Avenida de Moçambique.

Disse-se que estas mudanças serviam para criar passeios mais largos e ciclovias. A intenção pode ser nobre, mas a realidade mostra pouco uso e fraca adaptação. Pior, faltou prever cenários de emergência e se eles existirem não existe solução. Basta um autocarro avariado para bloquear tudo. Em horas de ponta, o trânsito fi ca estrangulado. Se for preciso passar um veículo de socorro, a margem de manobra é mínima ou quase nenhuma.

Setúbal deve ser pensada com ambição e equilíbrio. Aplaudem-se as obras que protegem a cidade. Criticam-se as que a asfixiam. Planeamento urbano não pode viver só de boas intenções nem de receitas de estacionamento. Se queremos uma Setúbal preparada para o futuro, não faz sentido proteger contra a água e bloquear o movimento em terra.

Carlos Cardoso – gestor