Normalizar a exceção não é caminho

O encerramento das urgências de obstetrícia no Hospital do Barreiro não é apenas mais um ajuste temporário no Serviço Nacional de Saúde. É, não tenho dúvidas, um sinal claro de que o distrito está a entrar numa fase preocupante no que toca à resposta materno-infantil.

A verdade é que temos vindo a normalizar o que devia ser exceção. Fala-se em “reorganizações” e “constrangimentos pontuais”, mas a verdade é que os encerramentos se repetem e a incerteza instala-se. Uma grávida no distrito já não tem a garantia de que a maternidade mais próxima estará aberta quando precisar. E quando falamos de partos, não falamos de algo que possa esperar.

Setúbal cresceu em população e em dinâmica urbana, especialmente nos concelhos servidos pelo Hospital Nossa Senhora do Rosário, mas os serviços públicos não acompanharam esse crescimento. Cada urgência que fecha sobrecarrega as restantes, aumenta distâncias, pressiona equipas e fragiliza a confiança no sistema. O problema deixou de ser conjuntural é estrutural. E este governo, que tanto prometeu, tem empreendido, neste caso e em outros, uma política de desnorte.

Preocupa-me que estejamos a aceitar esta erosão como inevitável. A falta de profissionais, a incapacidade de fixar médicos e a ausência de planeamento estratégico não podem continuar a ser justificações permanentes. Quando o acesso à saúde depende do código postal e quase apenas de lista telefónica, estamos perante uma desigualdade grave.

Se nada mudar, o setor no distrito continuará a entrar em crise. E quando começamos a falhar no momento do nascimento, estamos a comprometer muito mais do que um serviço hospitalar, estamos, sim, a comprometer a confiança das famílias e o próprio futuro da região.