Fontenova leva à cena“Nos Mares do Fim do Mundo”

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O espetáculo, encenado por José Maria Dias e inspirado nos livros “Nos Mares do Fim do Mundo” e O Lugre”, promove uma reflexão sobre a dureza das campanhas do bacalhau e o papel das mulheres durante o Estado Novo.

“Nos Mares do Fim do Mundo” é a nova criação do Teatro Estúdio Fontenova, um espetáculo que estreia esta sexta-feira no Fórum Luísa Todi, em Setúbal, e conta a história da dura e sofrida vida nas campanhas do bacalhau e do papel das mulheres dos pescadores durante o Estado Novo.

A peça, com encenação de José Maria Dias, parte das obras “Nos Mares do Fim do Mundo” e “O Lugre” de Bernardo Santareno. Médico de profissão, o autor esteve a bordo de dois navios bacalhoeiros e no navio-hospital “Gil Eannes” na Terra Nova (Canadá) e Gronelândia. “Estas obras surgem das experiências que o escritor teve nessas campanhas. A primeira resulta de um conjunto de crónicas que ele escreveu, a segunda partiu dessas histórias, que depois dramatizou. São relatos impressionantes das condições de trabalho e dos riscos a que estas pessoas estavam sujeitas”, destaca o encenador, em conversa com o Semmais.

O tema e o autor não são estranhos à companhia sadina, que em 2020 realizou uma performance ligada à comunidade piscatória, optando agora por recuperar estas obras e aprofundá-las nesta dramaturgia. “Estes homens passavam coisas impensáveis. Trabalhavam no bacalhau durante sete, oito, às vezes nove meses seguidos. Eram largados em dóris, pequenos barcos, e pescavam em alto mar durante horas. Eram tempos de grandes dificuldades económicas e de grandes privações. Era um pouco a imagem do Estado Novo, não havia grandes hipóteses, ou fazias parte de uma elite ou tinhas que trabalhar arduamente e às vezes de forma escrava para poder subsistir, até mesmo para sobreviver, se não morrias à fome”, sublinha José Maria Dias.

O importante papel das mulheres

Para o encenador, houve também interesse em abordar o papel das mulheres na sociedade dos anos 50 e 60 do século passado, frequentemente destinadas a funções “secundárias” e em situação de quase “subjugação”, considerando que ainda hoje persiste “muita discriminação e violência sobre as mulheres”. “Além de tomarem conta das famílias, praticamente todas tinham também de trabalhar. As mulheres dos pescadores ajudavam a sustentar os lares, sem quaisquer direitos, com muitas horas de trabalho e sem possibilidade de reivindicação”, acrescenta.

Segundo José Maria Dias, a peça aborda a “preservação da memória” e assume-se como um ponto de partida para o “despertar das consciências”. “Vivemos tempos tenebrosos, em que se assiste abertamente ao ressurgimento do fascismo. As pessoas não têm memórias e a culpa é nossa. Acho que podíamos ter feito mais, em todo lado, para que houvesse informação e para que as memórias se mantivessem. As pessoas estão a ser levadas por falsas esperanças”, refere o dramaturgo.

Nesse sentido, o encenador recorda o “espírito inconformado” de Bernardo Santareno. “Foi perseguido pela PIDE, torturado e preso por escrever estas coisas, por dar a conhecer a realidade do que se passava. O regime não tolerava essa crítica nem essa exposição. É fundamental que as pessoas tenham consciência do que aconteceu no país durante o fascismo”, conclui José Maria Dias.